3 de out de 2004

Gente.... esse aqui tem ralo!!!


(da Série: crônicas de montreal - escrito em 26 de junho de 2003)

Epopéia de uma banheira

Para começar esta coletânea de crônicas, nada melhor que uma história antiga, que aconteceu em junho do ano passado, quando estava preparando-me para mudar de casa. A crônica na verdade é uma parte de um e-mail que enviei a um amigo que me tinha confiado as chaves de sua casa. Pois bem, dizia eu:

"...agora se prepara aí que te vou contar uma história... ou melhor, uma epopéia...

Faz uns dois meses a R. tentou limpar a banheira com um produto químico. Só que ela não leu a embalagem e deixou o negócio lá muito tempo, o que acabou manchando um pouco. Nada grave, só umas raias cinza clarinho...

Enfim... Tentamos de tudo pra limpar (até aquele CLR que passa na televisão - êta sociedade de propaganda) e nada. Já haviamos desistido de limpar completamente, embora tenhamos dado uma boa melhorada e estava tudo quase como antes.

Só que essa semana a banheira começa a entupir... No começo devagarinho até que parou completamente! Tentei catucar com um arame, e nada... Aí fui na RONA pra comprar um desentupidor (que eu aprendi que diz bouchon em francês e em inglês... bom, em inglês esqueci).

Mas voltando à história, lá chegando aceitei a sugestão de um vendedor que disse que para banheira "o bom mesmo" era um produto químico... Um ácido, você bota lá e o negócio detona tudo! Eu caí nessa e comprei o tal produto.

Ao chegar em casa, leio as instruções que dizem para colocar um copo do negócio, esperar cinco minutos e deixar a água correr por 15 minutos... Coloco o produto no ralo e escuto um barulho de coisa queimando! Aí a sujeira começa a voltar... Até aí tudo bem, pensei... Saí um pouco do banheiro pra não ficar respirando aquilo e quando volto... um verdadeiro filme de terror...

Lembra das manchas que eu tinha te falado antes. Pois é, o vapor do ácido entrou em reação com o que tinha do outro produto encrustado na banheira e queimou tudo. A banheira inteira estava marrom escuro. Tentei esfregar com a parte rugosa de uma esponja e nada do troço nem ameaçar limpar.

Nesse momento comecei a fazer as contas... $600 uma banheira nova, $400 pra eles instalarem, $200 de hotel pros novos moradores daqui até a banheira ser instalada... Enfim, na minha cabeça já se iam uns $1500 dólares escorrendo pelo ralo (e olha que o ralo continuava entupido)!

Aí chamo a R. e voltamos no Rona pra ver o que podemos fazer... A cabeça tentava se consolar: "eles vão ter um outro produto que vai limpar" ou "vai existir uma tinta de banheira pra gente pôr por cima", mas o bolso, mais realista, já sentia os golpes (quase mortais, na situação em que estamos, de bolsa pra atrasar - a minha não depositaram até agora).

Chegamos na RONA às 18:10 e pra melhorar tudo, eles fecham às 18 nas quartas...

Voltamos pra casa. Na volta, compramos uns "scrubbers" (uma esponja sem a esponja - só com aquele outro lado que a gente usa pra "ariar" panela na falta de bombril) com lugar pra segurar e facilitar a "esfregação"... Compramos também uns óculos (Speedo) de mergulho, pra tentar nos proteger dos vapores...

Pra te falar a verdade, nessa hora não tinha mais muita esperança... Já via o dinheirinho escorrendo pelo ralo (puto ralo, pro dinheiro ele NUNCA entope). Chegamos, esfregamos um pouco e nada... Eu desisto e vou buscar na internet quanto custa uma banheira nova, quase a ponto de sentar no chão e chorar sobre o leite, digo, o ácido derramado. A R. muda, acuada num canto...

Daqui a pouco escuto a R. gritando do banheiro... Vou ver e ela descobriu que com sabão Ariel e muita esfregação o marrom parecia que ia embora e começava a embranquecer (ela já havia tentado sabonete, shampoo, e sabe Deus o que mais). Eu assumo o comando do "scrubber" e não é que o sabão funciona
mesmo! Você tem que esfregar cada centímetro como se daquilo dependesse a sua vida, mas, depois de mais ou menos uns vinte segundos de trabalho, o negócio realmente esbranquecia!

Obviamente a R. já pensou em como ganhar dinheiro em cima disso: vendendo uma nova idéia publicitária para a Ariel. Começo da propaganda: imagem de uma banheira toda manchada e caras de terror. Aparece o Ariel. Umas leves esfregadas (obviamente, na propaganda, a gente não vai botar um cidadão de cueca, óculos de mergulho e camisa na cara...) e tchamn-tchamn a banheira branquinha de novo!

Bom, mas voltando a odisséia... Não, não acabou... Quando estamos todos felizes achando que com mais uma hora de esfregação o negócio vai estar limpo (na verdade, mais limpo que antes: um produto cancelou o outro e o sabão lavou os dois) ouvimos a campainha... Eu pensei, era só o que faltava...

Eu me tranco no banheiro e a R. vai atender. A casa uma bagunça com os preparativos da mudança. Era a vizinha de baixo perguntando se a gente estava tendo problemas com o banheiro, que na casa dela havia água escura inundando o banheiro desde o teto...

Nessa hora pensei: Como dizia a madre superiora do colégio Cristo Rei lá de Marília: Puta que Pariu... Saímos do forno pro microondas... Agora não vamos ter que pagar a banheira mas temos que pagar alguém pra quebrar a parede e ver onde o ácido queimou o cano!

Durante toda a conversa, eu trancado no banheiro, a R. na porta e a vizinha tentando ver o que estar acontecendo pelo fresta da porta. Essa mulher deve ter pensado que haviamos matado alguém e estávamos tentando nos livrar do corpo em pequenos pedaços pela privada... Era a única explicação plausível.

Dizemos que vamos falar com o admnistrador em breve, pra ganhar algum tempo. Minha idéia é limpar a banheira antes de que o cara venha, pra não sermos responsabilizados por ter posto produto químico nenhum... O problema é que falta ainda metade da banheira...

Meus braços nunca trabalharam tanto em tão pouco tempo... Houve um momento em que eu estava como o pintinho daquela piada antiga, aquele que fumou um cachimbão de maconha: "não estou sentindo nada...". Não sentia os braços, não sentia as pernas, não sentia nada...

Finalmente acabei, depois de uns cinquenta minutos e mais uma visita da vizinha. Nas suas palavras agora existe um rio... Eu fiquei cá, a cabeça torcendo que fosse aqueles riozinhos que secam durante oito meses ao ano da minha saudosa Paraíba, enquanto o bolso (fdp) só conseguia falar de Amazonas, Nilo e, na melhor das hípótese, São Francisco!

Enfim... chamamos o administrador. No caminho passamos na vizinha e vamos ver o tal rio... Na verdade, meia tigelinha de uma água marrom clarinho! Se o alívio não tivesse sido maior que a raiva, juro que diria umas tantas coisas. Mas, verdadeiramente, a alegria de ver que o Amazonas não passava de umas gotinhas foi superior! (Em tempo, esta água provavelmente havia escorrido do chão do banheiro, que estava todo molhado, ou seja, não tinha nada que ver com o meu ácido ou nada).

Finalmente, vem o administrador, que deve ter visto a banheira mais limpa da vida dele! Catuca e catuca o ralo e, finalmente, nos pergunta se poderíamos, por favor, ficar sem a banheira até o dia da mudança... A esta altura do campeonato já era melhor pra gente mesmo, do que ter um encanador em casa, fazendo mais sujeira do que aque já temos que limpar...

Bom, mas tudo isso pra dizer que ontem fomos tomar banho na tua casa... "


Blog: Comédias da Vida Gelada