4 de mar de 2007

A Claudia está morando em Milão.



MILAN'S WAY OF LIFE

As coisas aqui em Milao funcionam mais ou menos assim:

. TODO cheque é nominal, ou seja, TODO cheque voce tem de ter documento, assinar no verso e so pode descontar na agencia onde quem emitiu tem conta;

. Os onibus tem horario marcadissimo, tipo nao atrasam um minutinho sequer pra sair. Dai, se voce esquecer o celular em casa e voltar pra pegar, ta frita, minha filha! So dez minutos depois...

. As pessoas adooooooooooram ir pro bar... de manhazinha!! tomar café!!

. No metro, se voce se distrai e nao cede o lugar a uma pessoa idosa, ela muito educadamente o exige de voce;

. A gente tem de se vestir no estilo "cebola", isto é, em camadas. Pra sair ali na esquina é um veste veste veste veste veste que nao acaba mais. Quando chega em algum lugar, é um tira tira tira tira tira... ufa!! Todo lugar fechado tem aquecimento, e essa época do ano ELES EXAGERAM!! Em casa tem de ter daqueles cabidinhos de pendurar casaco (aqui em casa ainda nao tem) pra gente fazer igual nos filmes noir;

. Outra coisa indispensavel em casa aqui é um porta-sombrinhas do lado de fora da porta. E às vezes roubam sim, as sombrinhas! Mio amore ja teve uma roubada ha pouquissimo tempo, nao neste, mas em seu antigo apartamento;

. As pessoas às vezes falam em dialeto milanes, ai é um deus-nos-acuda porque nao entendo absolutamente NAAAAAAAADA!!!

. Depois das 9 da noite o centro vira um deserto;

. As crianças de até 5 anos ainda sao conduzidas pelas ruas em carrinhos de bebe!!

. Falando nisso, as maes milanesas - alias, vou generalizar, as maes italianas - sao pra la de autoritarias! Gritam, sugigam, biliscam, assim na maior!! Outro dia vi uma carregando o filho de uns 3 anos pelo capote porque o fulaninho nao queria sair do parque. McDonalds, restaurantes, shoppings... é um tal de mar gritando com filho que nao se pode imaginar. E elas parecem nao sentir nenhum milimetro de culpa.

. As avos sao iguaizinhas as maes! Nada de paparicar os netos, gritam meeeeesmo!!

. E os pais? voces poderiam perguntar. Tem cara de tédio.

. Caixa de loja e de supermercado parece pista de corrida, péssima situaçao para uma pessoa atrapalhada como eu, mas estou aprendendo a ser mais objetiva;

. Quase tudo é automatico, até locadora de video. Por isso, aprender a nao ter medo dessas maquinas malucas é uma necessidade!

. Na rua, basta voce botar o pézinho na faixa de pedestre que os carros param. Fiquei imaginando uma brincadeira de botar pé, tirar pé, botar pé, tirar pé... hihihi

. Os sinais de transito de pedestre às vezes sao iguais aos dos carros, isso me confunde! Muitas vezes também estao do outro lado da rua;

. Aqui andam todos misturados, onibus, tram (bondinho), carros, bicicletas... e ninguém se atropela! Mamma mia!!

. Os prédios sao quase todos iguais, mesmo padrao. Me da vontade de pegar uma lata de tinta azul e pintar pelo menos UM de uma cor diferente!! Os tais balcoes também sao tao repetitivos!! Estava pensando em colocar florezinhas nos meus, mas ultimamente ando querendo algo mais alternativo. Talvez esculturas... ou uma rede!

. Ainda existem vendinhas, verdureiros e essas coisas todas que mais parecem da Idade Média. Adoro. So nao gosto de nao poder escolher o produto.

. Milao tem muitos campos ao lado das avenidas. E bonito ficar olhando, parece que a gente se perde na paisagem de planura total.


Blog: Sabiá sabe assobiar

16 de ago de 2006

Gente, por favor....



Addio! Goodbye! Farewell... Hasta la vista baby, JAMAIS!!


ESTAMOS DEIXANDO A ITÁLIA. VIVA A SUÉCIA!

A frase é assim mesmo breve, mas por traz disso tudo um furacão de acontecimentos que nos fez definitivamente tomar a decisão de deixar esse país. As razões são muitas e devido a sucessivas frustrações vimos que a melhor alternativa pra vivermos como cidadãos de verdade era essa.

Nos últimos meses várias coisas colaboraram pra nossa decisão. Começou com um Contrato de Parceria Civil e Sociedade de Fato que desde o novo código civil brasileiro já é possível ser feito por casais gays no Brasil, embora não seja união civil em se tratando de inexistencia de regulamentação específica na Constituição Federal. Porém uma alternativa que pode ajudar muito a assegurar os nossos direitos.

Bom, pagamos um advogado em São Paulo que o fez retroativo e cobrindo tudo que precisamos e todos os direitos de qualquer casal, e ainda seria possível, caso quiséssimos, pedir o visto de permanência brasileiro pro Roberto.
Recebemos o contrato, assinamos e levei no Consulado Brasileiro pra reconhecer a minha firma o que foi feito de forma simples e rápida.

Já a parte do Roberto... dai começou a nossa novela O cartel-máfia NOTAIO della Terra Nostra, que em resumo da obra foram várias tentativas mal sucedidades de APENAS reconhecer a firma do Roberto, mais nada. Apenas ver que aquele fulano que assina é mesmo o dono da sua assinatura!
Como o nosso conhecido está de férias --- e aqui sem conhecido, padrinho, recomendação e todo esquema mafioso que é enraizado na cultura não se caminha --- vimos que teríamos que esperar a sua chegada em setembro pra tentar mais uma vez ter mais um direito reconhecido.

Os dias se passaram e chegou mais um ano em que teria de renovar meu visto de estudante --- única forma legal de me fazer entrar no bel paese, talvez seria mais fácil chegar de barca e viver clandestinamente pra depois receber o indulto, mas enfim, fomos até a Questura com alguma antecedência e conforme tinha sido dito no ano anterior era disponível um serviço de agendamento por SMS. Era só enviar uma mensagem via telefone celular pro número indicado escrevendo o número do permesso di soggiorno. Bom demais pra ser verdade, se funcionasse!

Mandei e como todos os outros imigrantes recebi uma mensagem padronizada dizendo pra comparecer na data da expiração do visto ou 1.o dial útil após, caso já estivesse expirado.

Fomos e ao chegar deparamos com uma fila de 400 pessoas e a resposta de que a minha mensagem tinha sido enviada muito tarde, eu deveria tê-la enviado com 90 dias de antecedência, mas em nenhum momento essa informação foi comprovada por escrito, nem mesmo no site da Questura ou nos avisos afixados no portão. Então qual seria nossa surpresa? Voltar mais uma vez e ter que passar a noite do lado de fora pra conseguir pegar a ficha vermelha que possibilitaria o atendimento no dia seguinte. Quase uma loteria já que distribuem menos de 50 entre 400, 500 pessoas. Igual exatamente igual ao ano passado! Mas porque esse tratamento? Por que eu não sou cidadão da comunidade européia que tem horário diferenciado, nem jogador de futebol ou cidadão americano que trabalhe em empresa credenciada à Questura.

Saímos de casa às 23:45 h da noite. Chegamos lá por volta de meia-noite e vinte. Éramos o 35ésimo na fila organizada pelo senhor romeno de cabelos brancos. Passamos mais de nove horas em pé com chuva, gritarias, brigas de socos e pontapés. Alguns que furaram a fila na cara-de-páu. Chamamos a polícia que veio no meio da madrugada. Passou de fininho e assim mesmo saiu. Às 8 h da manhã a chamamos novamente. Veio os dois primeiros policiais. Deram uns gritos, debocharam, cassoaram de tudo e de todos. Chamaram outros colegas. Vieram, deram uma olhada e sairam pra tomar um café.

As 08:30 h abriram os portões. Disseram que seriam poucos números. Reclamamos que estávamos ali a noite toda. Um policial italiano disse: "- Sinto muito como pessoa, mas como policial NÃO".

Em meio aos gritos dos políciais seguimos em fila por entre as barretas de aço que nos separavam. Parecia ou abatedouro, ou um campo de concentração. Estavámos lá na fila. Chegou o número 35 da fichinha vermelha. O policial diz:

"- O número acabou. Não vamos atender mais ningúem. Podem voltar outro dia." E nós lá, incrédulos, depois de passar uma noite inteira em pé, sem dormir, exaustos, feridos na alma pelo horror, vergonha e falta de respeito. Pela falta de humanidade.

NÃO CONSEGUI RENOVAR MEU VISTO. Não sou clandestino. Tenho visto de estudante. Pagamos pra estar aqui. Passei por uma análise e aprovação do Consulado Italiano no Brasil. Temos seguro bancário que nós custou muito! Mas mesmo assim, nada funciona, nem funcionará somente as boas massas, as pizzas, a história, o belo look D&G, a falta de educação, o trânsito displicente, o jeito esperto do mais 'furbo', a desorganização: o modo all'italiana.


Blog: Fora do Armário

14 de ago de 2006

A Sandra, mora na India e tem um blog super-interessante falando da vida de lá. Nesse post, não se fala de ralo, mas em compensação...


Brasileiras na India


Nâmaskar

A Vange me escreveu perguntando sobre as brasileiras que moram aqui.

Eu não posso ficar falando da vida pessoal de cada uma por uma questão de ética, mas posso dizer que 90% delas NãO são completamente felizes aqui na Índia, elas reclamam muito.

Na verdade são todas estressadas. Eu por exemplo, detesto quando os leprosos vem pedir dinheiro e ficam tocando no meu braço.

Duas brasileiras em cidades diferentes e ocasiões diferentes deram 10 Rúpias à uma criança que veio que pedir dinheiro e na mesma hora a criança jogou o dinheiro de volta, pois 10 Rúpias é muito pouco. Estrangeiro tem que dar no mínimo 100 Rúpias pro mendigo ficar feliz, se não quiser ser considerado mão-de-vaca (muquirana). Acontece porém que não somos turistas, que moramos aqui e que infelizmente ganhamos em Rúpia e não em dólar. Vai explicar isso para todos os mendigos que cruzam seu caminho diariamente! Eles não querem saber, na cabeça deles você sendo estrangeiro automaticamente você é rico e portanto tem OBRIGAÇÃO de dar-lhes dinheiro!!!! É assim que funciona na Incredible India.

Do que mais as brasileiras reclamam aqui é da total falta de noções básicas de limpeza e higiene. Este parece ser o fator de maior causa de irritação para todas.

O trânsito caótico e o volume e quantidade de buzinas vem em segundo lugar juntamente com o clima extremamente quente e úmido.

Todas reclamam dos arrotos e peidos que são lançados como mísseis a toda hora por todos os indianos (homem, mulheres e crianças); E do mau cheiro que impera triunfante por todo o país, pois as vacas cagam pelas ruas e os homens mijam em postes e paredes juntamente com os cães. Por isso que incenso indiano tem o cheiro forte, é como perfume francês!!!

E reclamar da sogra é algo básico no mundo todo não é mesmo? ;-)

Ver as vacas comendo lixo nas ruas é outra coisa que desagrada aos estrangeiros.

Peidos eu não gosto não, mas arrotos, gente comendo só com a mão, falta de papel higiênico, toilet indiano de chão, poluição, sujeira, buzinas, trânsito, indiano mijando na rua, vacas comendo lixo, já me acostumei. Não me importo, e sou agora a rainha da sujeira e bagunça.

O que me irrita mesmo é a falta de energia elétrica, a falta dos alimentos que eu gosto e estava acostumada a comer há 36 anos, o fato de colocarem MUITA pimenta na comida, as diarréias constantes minhas e dos meus gatos, os mendigos me perseguindo na rua e o fato dos indianos te tratarem como um retardado mental e quererem levar vantagem em tudo, sempre, o tempo todo. Me choca o capitalismo exacerbado que impera aqui, onde o que fala alto é o dinheiro e onde ética e moral são totalmente desconhecidas e ignoradas. Pra mim isto é muito triste.

As brasileiras gostam dos monumentos históricos, dos saris todos bordados a mão com pedras e lantejoulas, do colorido das roupas, chapati, dal sem pimenta, doces, música indiana, filmes indianos, jóias, andar sem medo de assaltos pelas ruas, etc.

No geral as brasileiras e portuguesas que estão aqui é porque vieram a trabalho ou a estudo ou então porque se casaram com indiano, Não conheço pessoas que fiquem aqui por longo tempo a menos que estejam casadas ou trabalhando; embora algumas venham só para acompanhar o marido que foi transferido de outros países para cá. Uma coisa é certa, se o seu casamento sobreviver sua estada na Índia, você não se separa nunca mais!

A comunidade no Orkut chamada Minha Sogra é uma Drama Queen foi criada por uma brasileira que detesta a sogra indiana.

Incredible India


Blog: Indi(a)gestão

13 de ago de 2006

No site Brasileiros na Holanda encontrei um texto de outra brasileira que comenta a falta de ralo.
Leia AQUI.

Outros textos da mesma colunista? AQUI .
Não deixem de ler!

AQUI, o blog da colunista.




Brasileira "de passagem" constatou falta de ralo...
(essa eu publico sem pedir a autorização. Não consegui acessar os comentários)



Morte e azar. Alemanha...


Cerca de duas horas após a decolagem um ucraniano duas fileiras à direita da nossa se levanta passando mal. Sentia falta de ar. Logo as aeromoças, que não falavam português, o levam para a cabine da frente. Depois disso ouvimos vários anúncios. O primeiro pedia auxílio de algum médico. Começou a correria. Os dois colegas do ucraniano vinham a todo o momento buscar algo na classe econômica com cara de desespero. O segundo anúncio avisava a má condição do passageiro. O terceiro, que voltaríamos ao Rio de Janeiro (esse retorno demoraria 45 minutos) para que o senhor pudesse ter alguma chance de sobrevivência. O quarto, assim que pousamos, informava o falecimento do senhor minutos antes.

Esses foram os únicos avisos da noite que procederam. Os outros, que previam o horário da nossa ida em dentro de uma hora, passou para o dia seguinte às três, depois às cinco da tarde, mas que se realizou apenas às seis da noite. A solução para a fatalidade que podia até nos atrasar algumas horas foi tão precipitada, que o atraso foi de 24 horas. Isso fez com que perdêssemos um dia e meio de competições e prejudicássemos além de nós, os atletas dos outros países que fariam equipe conosco.

O avião virou cárcere. Ninguém podia sair. As pessoas passavam mal, os comissários não sabiam quais os procedimentos tomar, muito menos o capitão. Não tenho idéia de que horas retiraram o corpo do avião. Mas eu, o Iranildo e acompanhantes só saímos de lá às duas da madrugada. Isso depois de fazer um drama, senão teríamos sido os últimos a sair. Os colegas do ucraniano teriam dito que ele estava internado em um hospital, não havia recebido alta, mas fugira para viajar. Ele teve um edema pulmonar. Afogou-se no próprio sangue. Lembro-me perfeitamente dele se levantando com falta de ar... A vida é muito efêmera.

Chegamos a Amsterdã, Holanda, cerca de 11 da manhã. Ao contrário do que os responsáveis de SP da a empresa aérea em que viajávamos, a KLM, (pois é, no Rio não tem representação da KLM. Imaginem a bagunça na aterrissagem e decolagem) o vôo de conexão da manhã para a Alemanha não nos esperou. Aguardamos o outro vôo a tarde toda. O primeiro sairia só às 17:00 hs. Essa foi a única parte melhorzinha. Ficamos na área vip bem confortáveis com direito a champagne e biscoitos amanteigados. Estávamos muuuito cansados. No aeroporto, devido a confusão do nosso atraso, ninguém havia ido nos buscar. Esperamos mais uma hora e gastamos vários euros na tentativa de contatar a organização. No hotel, mortos de fome, descobrimos que o jantar já tinha sido servido no ginásio de competições. Há cerca de 50 horas doida por um banho, me deparo com uma banheira. O jeito foi tomar banho fora do box. Sem ralo, a água escorreu para o carpete do quarto. Ahhhh...

São cinco horas de diferença do Brasil. Acordamos feito zumbis e fomos ao ginásio. Nem contei, o Zé, nosso técnico, teve uma crise de dor de coluna que aumentou muito. O coitado está sentindo tanta dor que não consegue nem apoiar a perna direita no chão. O pessoal até brinca dizendo que ele é o terceiro atleta do time. Apesar dos risos, estou preocupada com ele. Até lembro os meus sintomas quando tive a lesão. Enfim, debilitado, não podia nos aquecer antes das partidas. Pra completar a maré de sorte, os meus jogos e os do Iranildo eram ao mesmo tempo. Sempre um dos dois ficava sem auxílio técnico.

O nível técnico das européias é elevado e a mobilidade também. As classes dois mechem um pouco as mãos. Apesar de não chegarem a ser paraplégicas, estão quase lá. Isso pra mim foi meio frustrante. Esperava encontrar atletas com a mesma dificuldade motora que eu. Segundo o classificador que me reclassificou aqui, estou no limite entre as classes um e dois porque por mais que seja enfraquecido, tenho movimentos de tríceps preservados. A classe um não tem nada. E as meninas classe dois daqui... bom, elas não movimentam perfeitamente a mão o que faz a pessoa virar classe três. Eu, não movimento absolutamente nada da mão e ainda não tenho tríceps direito. Pra ter alguma chance, tenho que treinar muuuito para ganhar na técnica a diferença de mobilidade. Não deu para passar para as finais. No entanto, meu objetivo foi alcançado. Agora sei como elas jogam. O próximo passo é analisar e treinar. Vamos ver como será no mundial.

Depois de um dia cansativo desses, o que Carlinha mais quer?? Cama! Ai, ai, ai... meu quarto foi bloqueado. Ao ver o carpete ensopado, os responsáveis do hotel “putos” da vida resolveram trancar meu quarto. Eu sei que errei. Mas fiz de tudo pra água não escorrer. Coloquei toalha no vão da porta mas mesmo assim não deu. Umas três horas esperando solução. Que constrangimento! Odiei a atitude deles. Depois de meia-noite encontramos um lugar para que eu pudesse tomar banho, o vestuário da piscina. Acabou que pedi ajuda para uma espanhola e com trabalho, fiquei na banheira mesmo. Hoje teremos uma conversa para decidir se vou ter que pagar ou não essa joça. Pra finalizar com chave de ouro, na festa de encerramento o organizador veio falar que não recebeu meu depósito da inscrição. Ainda vou ter que ir ao banco reclamar.
Graças a Deus, nada de ruim aconteceu na viagem de volta. Kkkkkkk... nunca pensei que ficaria tão rápido com tanta vontade de voltar ao Brasil. Espero que nada mais aconteça. Vou me benzer. Hihihi

Blog: Carlinha em Atenas

11 de ago de 2006

Até que enfim alguém notou de novo que aqui não tem ralo....


"Porque sim" nao é resposta!


Porque na Italia nao existe ralo?
Porque os padeiros pegam o pao com a mesma mao que eles pegam o dinheiro e possivelmente coçam o dito cujo?
Porque no supermercado nao vende fosforo? Nem fio dental?
Porque nas lojas o vendedor pensa que esta fazendo o favor de vender algo para voce e tratam mal a clientela?
Porque se voce erra alguma palavrinhas eles fazem de conta (ou sao burros?) de nao entender nada?
Porque pensam que voce tem que ser negra por ser brasileira?
Porque pensam que voce tem que saber sambar por ser brasileira?
Porque pensam que voce tem que ser uma otima dona de casa so porque é mulher?
Porque pensam que voce nao pode ter opiniao so porque voce é mulher?
Porque pensam que voce morria de fome no Brasil e agora esta com a vida boa?
Porque pensam que so porque voce mudou de pais, nao ama os seus pais e familia?
Porque pensam que voce é idiota se voce sorri para os outros?
Porque pensam que voce é idiota se agradece o vendedor depois de comprar algo?
Porque pensam que voce é bobo alegre se esta feliz?
Porque quando batem o carro a primeira coisa que fazem é ligar pro papai ao inves de chamar o guincho?
Porque em 2006 ainda votam com papel e lapis fazendo um X no candidato ao inves de votar com computador?
Porque o sistema bancario daqui é precario? Uma transferencia entre contas demora ate 4 dias e para fazer um deposito em uma conta precisa da autorizaçao do beneficiario.Porque ninguem paga contas pela internet?
Porque nos restaurantes nao tem menu e quando tem nao tem os preços?
Porque para entrar numa praia voce é obrigado a pagar?
Porque nao existe varal de teto?
Porque Italiano pensa que diversao = entrar no mar num calor de 40°C?
Porque italiano insiste em perguntar se no Brasil existe TV a cores, computador, elevador, macarrao, carros, entre outras coisas absurdas?
Porque insistem em usar fax ou correios se ja existe email?
Porque tudo, mas tudo mesmo, fecha por duas semanas em agosto, transformando todos os lugares em cidade fantasmas?
Porque tudo fecha das 13hs ate as 14hs?
Porque depois das 14hs, tudo fecha as 20hs?

E Napoli?
Porque aqui nao tem farol?
Porque quando tem farol, eles estao desligados?
Porque napoletanos nao respeitam a contra mao?
Porque napoletanos pensam que sao os mais simpaticos do planeta?
Porque napoletanos gritam para chamar alguem?
Porque napoletanos nao usam o celular ou interfone para chamar alguem que mora no ultimo andar de um predio e gritam ate que a pessoa apareça na janela, nao importando o horario?Porque napoletano tem vergonha de entrar numa loja e nao comprar ou dizer que nao compra porque esta caro?
Porque napoletano ve uma cidade inteira se transformar em um lixao ao ceu aberto e nao faz nada para mudar?
Porque 9 entre 10 carros em napoli sao batidos?
Porque napoletano acha que tudo é estacionamento? Inclusive o portao de entrada e saida de carros e as calçadas.
Porque napoletano ainda nao aprendeu o que é faixa de pedestres?
Porque napoletano fala gritando e grita berrando?
Porque napoletano nao sabe usar a palavra "adesso" (em portugues = agora) e diz so em dialeto "mo"?

E porque raios vim parar aqui???


Blog: Made in Napoli

3 de mar de 2006

Era Glacial

Saudades;
Acabamos de sair do periodo glacial aqui na Italia e finalmente entramos no inverno. Aqui eles chamam de inverno o periodo de 22 (ou 23) de dezembro atè 22 (ou 23, eu nunca me lembro) de fevereiro, mas eu costumo dividi-lo em 2 periodos distintos: O Glacial, onde nao dà nem pra respirar fora de casa e o inverno, onde faz um puta frio mas se respira. Comecei a escrever este post antes do periodo glacial mas nao consegui terminar a tempo e como todo bom urso.... entrei em hibernaçao, portanto desculpem a ausencia. Faço um breve resumo de como foi esse periodo por aqui:Como sao bonitinhos aqueles filmes americanos em que o papai Noel chega num trenò rodeado de neve por todos os lados, as crianças que fazem bonecos de neve e colocam uma cenoura como nariz...ahhh que lindo!!E realmente è tudo lindo, desde que vocè esteja vendo o filme na televisao em um paìs como o Brasil onde 0ºC è sò um numero no visor digital dos freezers da Brahma que voce encontra nos butecos. Lindo um corno!Tà um puta frio aqui, minha rotina mudou completamente, agora tenho que acordar uns 20 minutos antes do normal sò pra me vestir......voces pensam que eu tò zuando?Bom, primeiro que quando vocè acorda as 6:30 da manha ainda è noite, pois aqui no inverno o Sol aparece somente durante 8 horas por dia, ou seja, claridade sò das 7:00 atè as 16:00, obviamente contando que seja um dia de cèu limpo senao a coisa pode ficar realmente dramàtica. Uma vez que voce abriu os olhos toca a pensar na melhor estrategia para sair debaixo das cobertas sofrendo o minimo possivel, pois durante a noite o aquecimento fica desligado por uma questao de economia, aì voce cria coragem e levanta de uma vez atirando as cobertas pra qualquer lado, no instante seguinte voce se arrepende e chega a conclusao que essa estrategia tambem nao funcionava mas nao se preocupe pois voce vai ter mais uns 4 meses pra tentar estratègias novas todas as manhas. Bom, depois desse instante de reflexao voce liga o mini aquecedor elètrico que por uma questao de sobrevivencia deve estar sempre a mao, na verdade nao ajuda muito, mas faz com que voce nao congele os orgaos ao tirar o moleton com o qual voce dormiu.Vestuario: cuecas;meia-calça (nao, voce nao entendeu errado, è isso mesmo, meia-calça pra homens, voce reluta um pouco no inicio mas depois acaba chegando à conclusao de que pode sempre dar uma de macho quando for pro Brasil, aqui nao rola);meias: preferencialmente de là e bem compridas atè quase o joelhocalças jeans ou de veludo;camiseta intima (algo que o brasileiro nao conhece, è tipo uma camiseta baby-look mas de um material mais quente;blusa de là, ou de qualquer outro material quente;cachecol (esse eu nao uso porque irrita a pele em contato com a barba, mas que ajuda ajuda);gorro;Jaqueta estufada com penas de ganso;Botas de couro ou de veludo forradas, e pronto, voce jà pode começar a tentar se mexer com uns 30 quilos a mais no corpo e as articulaçoes muito limitadas.Tudo bem, mas em casa tem aquecimento. O CACETE! O aquecimento tem mesmo, mas se voce usa-lo o numero de horas necessarias para manter a casa quente vai descobrir que a conta de agua e de luz eram sò um aperitivo pro governo, o prato principal è o gàs.Mas tem sempre a lareira, o bom e velho metodo usado desde o inicio dos tempos pra aquecer os homens e que ainda hoje è o que rola.Basta comprar a lenha de um camponès qualquer, o preço varia de 7 a 14 euros por 100 kilos (vale a pena pesquisar), eu costumo comprar uns 1500 kilos pra passar uns 2 meses. é bem mais barato que o gas mas dà um pouquinho de trabalho:1a. etapa: descarregar, chega o camponès com o seu 3 rodas com mais de 1 tonelada de lenha, ele vem sozinho ou com um ajudante e aì começa a brincadeira, pedaço a pedaço de lenha, de mao em mao pra empilhar em um lugar seco se sua preferencia, depois dos 10 primeiros pedaços grandes voce jà começa a sentir os beneficios do aquecimento, pois começa a suar como um porco e jà pode atè tirar a jaqueta, depois de 20 pedaços fora com o gorro......quando termina a descarga uns 90 minutos depois vocè jà està sò de camiseta e jurando que nascer denovo vai nascer no Brasil e ficar por là.Mas nao acaba aì!!! A lenha chega geralmente em pedaços muito grandes pra colocar na lareira de casa que geralmente è pequena, aì vc pega a serra eletrica e uuuhhhuuuu...começa a dar uma de louco, pelo menos nao tenho que usar o machado senao realmente me sentiria um primata (nao que esteja muito longe disso). A lenha nao pode ser armazenada dentro de casa, por 2 motivos, primeiro porque uma pilha de 3 metros de altura por 2 de largura nao entra na dispensa e no meio da sala nao fica legal, segundo porque teus moveis vao virar rota de pelegrinaçao de cupins. A soluçao è deixar a lenha fora de casa num lugar coberto, a' todos os dias voce chega do trampo cansado e antes de subir no ap. enche uma caixa com o maximo que puder aguentar nas costas ( no meu caso uns 3o kilos) e sobe as escadas com a caixa nas costas. Uma vez que vc entrou em casa e sigilou as portas e janelas pra nao entrar o frio aì vc começa a tentar acender o fogo rezando pra que a lenha esteja bem seca senao...bem senao è melhor nem pensar. Depois de uma hora o foco jà estarà bem aceso e vc terà um estoque de lenha pra a noite toda, aì voce se abraça com a lareira e espera na ter que se levantar nem pra pegar um copo d'aqua.E aì? Ainda acha o inverno bonitinho?


Blog: O Chamavam Brasiliano

17 de dez de 2005

Olha o ralo aí de novo...


– Um outro detalhe arquitetônico que me havia escapado são os ralos. Quer dizer, a ausência deles, já que as casas não os possuem. Portanto, nada de lavar banheiro ou cozinha, até porque água aqui custa caro e você irá provocar uma infiltração no teto do vizinho de baixo. Um esfregão, um balde, esponja e um dos milhares de produtos milagrosos da indústria da limpeza doméstica, resolvem.


Blog: Carta da Itália

11 de out de 2004

Ensaio da Tristeza

Pensando sobre aqueles que conheço realmente e virtualmente que trocaram de país, e sobre aqueles que na terrinha ficaram, é um pouco evidente como o exercício da felicidade em gringolândia merece mais atenção e esforço. Todo mundo sabe que não é fácil adaptar-se, ainda, muita gente põe os pés dos lados de cá com uma expectativa cor-de-rosa: se no Brasil há tantos problemas, primeiro mundo deve ser primeiro mundo justamente pela ausência de problemas.

Não é bem assim, e nem uma questão de problemas. Acho que a maioria das pessoas que vejo pelos lados de cá com maiores dificuldades na adaptação são aquelas que resistem em se desgarrar de tudo aquilo que foi referência durante a vida, muitos pré-julgamentos que carregam sobre o que é bom e o que é ruim.

É fácil entrar no esquema da reclamação: que se perde muito tempo com afazeres domésticos porque a ajuda é cara, que as pessoas não são muito receptivas, que eu faço unha e depilação eu mesma, que o povo é muito quadradinho, certinho, que eu, tendo grau universitário e pós devo ser tratada como "nata" e não como imigrante, que eu, que eu, que eu...

Ao meu ver, isso é somente o choque cultural e é muito fácil começar o esquema comparativo, que no Brasil é tudo muito melhor, porque aqui eu sou só uma imigrante. Ora, vejamos, sim, isso é fato, eu sou imigrante. E nessa palavra, ao meu ver, não há conotação pejorativa, se há na cabeça do interlocutor são outros quinhentos. Mas é por isso que muito expatriado acaba entrando no mode auto-loa, achando que tem muito mais qualidades do que as pessoas que o cercam, e ainda porque eles não sabem de todas as regalias das quais abdicou naquele país simplesmente fantástico para estar aqui. Fácil pensar assim e muita gente cai nessa cilada.

Difícil é enxergar o bom. Difícil é pensar que gringo, quando imigra para o nosso país, também passa pelas mesmas mazelas somente porque ele também tem suas qualidades e suas vantagens no seu país. Difícil é afastar aquela caixinha que não vemos, mas que está ali a delimitar a maneira como enxergamos as coisas. Difícil é ver além, dos lados, pelos lados. Difícil é buscar a felicidade.

Mas, vejo sim muita gente assim, com o espírito aberto, com a vontade de experimentar, de trocar, de tentar. E eu admiro muito essas pessoas, aprendo com elas sobre aquilo que me falta para ter o que tanto quero, a tal felicidade, busco nelas a vontade e o apoio quando esses me falham e tento aprender como lidar com o que sinto quando a saudade aperta.

Das tristes, eu também aprendo:

- que eu não quero tristeza pra mim,
- que eu preciso abrir minha cabecinha porque se não fizer, ficarei sucumbida à minha tristeza
- que no meu país as coisas não são melhores, são apenas diferentes, ou seja, que a comparação, na maioria das vezes, é pró-Brasil e anti-terra estrangeira, e isso é uma das piores ciladas
- que eu preciso ser humilde. Achar que sou melhor do que aqueles que me circundam porque eu tenho/tive isso ou aquilo no Brasil só me levará ao isolamento
- que ter bom humor para olhar para as próprias desgraças é fundamental para que eu não fique amarrada às mazelas
- que eu posso aprender, mesmo com aquilo ou aquelas pessoas que são o oposto do que quero para mim. Mesmo as tristes

Final das contas, acho que se aprende tanto dos diferentes quanto dos mais similares. O xis da questão está em querer aprender.


Blog: Duralex Sedilex

3 de out de 2004

Gente.... esse aqui tem ralo!!!


(da Série: crônicas de montreal - escrito em 26 de junho de 2003)

Epopéia de uma banheira

Para começar esta coletânea de crônicas, nada melhor que uma história antiga, que aconteceu em junho do ano passado, quando estava preparando-me para mudar de casa. A crônica na verdade é uma parte de um e-mail que enviei a um amigo que me tinha confiado as chaves de sua casa. Pois bem, dizia eu:

"...agora se prepara aí que te vou contar uma história... ou melhor, uma epopéia...

Faz uns dois meses a R. tentou limpar a banheira com um produto químico. Só que ela não leu a embalagem e deixou o negócio lá muito tempo, o que acabou manchando um pouco. Nada grave, só umas raias cinza clarinho...

Enfim... Tentamos de tudo pra limpar (até aquele CLR que passa na televisão - êta sociedade de propaganda) e nada. Já haviamos desistido de limpar completamente, embora tenhamos dado uma boa melhorada e estava tudo quase como antes.

Só que essa semana a banheira começa a entupir... No começo devagarinho até que parou completamente! Tentei catucar com um arame, e nada... Aí fui na RONA pra comprar um desentupidor (que eu aprendi que diz bouchon em francês e em inglês... bom, em inglês esqueci).

Mas voltando à história, lá chegando aceitei a sugestão de um vendedor que disse que para banheira "o bom mesmo" era um produto químico... Um ácido, você bota lá e o negócio detona tudo! Eu caí nessa e comprei o tal produto.

Ao chegar em casa, leio as instruções que dizem para colocar um copo do negócio, esperar cinco minutos e deixar a água correr por 15 minutos... Coloco o produto no ralo e escuto um barulho de coisa queimando! Aí a sujeira começa a voltar... Até aí tudo bem, pensei... Saí um pouco do banheiro pra não ficar respirando aquilo e quando volto... um verdadeiro filme de terror...

Lembra das manchas que eu tinha te falado antes. Pois é, o vapor do ácido entrou em reação com o que tinha do outro produto encrustado na banheira e queimou tudo. A banheira inteira estava marrom escuro. Tentei esfregar com a parte rugosa de uma esponja e nada do troço nem ameaçar limpar.

Nesse momento comecei a fazer as contas... $600 uma banheira nova, $400 pra eles instalarem, $200 de hotel pros novos moradores daqui até a banheira ser instalada... Enfim, na minha cabeça já se iam uns $1500 dólares escorrendo pelo ralo (e olha que o ralo continuava entupido)!

Aí chamo a R. e voltamos no Rona pra ver o que podemos fazer... A cabeça tentava se consolar: "eles vão ter um outro produto que vai limpar" ou "vai existir uma tinta de banheira pra gente pôr por cima", mas o bolso, mais realista, já sentia os golpes (quase mortais, na situação em que estamos, de bolsa pra atrasar - a minha não depositaram até agora).

Chegamos na RONA às 18:10 e pra melhorar tudo, eles fecham às 18 nas quartas...

Voltamos pra casa. Na volta, compramos uns "scrubbers" (uma esponja sem a esponja - só com aquele outro lado que a gente usa pra "ariar" panela na falta de bombril) com lugar pra segurar e facilitar a "esfregação"... Compramos também uns óculos (Speedo) de mergulho, pra tentar nos proteger dos vapores...

Pra te falar a verdade, nessa hora não tinha mais muita esperança... Já via o dinheirinho escorrendo pelo ralo (puto ralo, pro dinheiro ele NUNCA entope). Chegamos, esfregamos um pouco e nada... Eu desisto e vou buscar na internet quanto custa uma banheira nova, quase a ponto de sentar no chão e chorar sobre o leite, digo, o ácido derramado. A R. muda, acuada num canto...

Daqui a pouco escuto a R. gritando do banheiro... Vou ver e ela descobriu que com sabão Ariel e muita esfregação o marrom parecia que ia embora e começava a embranquecer (ela já havia tentado sabonete, shampoo, e sabe Deus o que mais). Eu assumo o comando do "scrubber" e não é que o sabão funciona
mesmo! Você tem que esfregar cada centímetro como se daquilo dependesse a sua vida, mas, depois de mais ou menos uns vinte segundos de trabalho, o negócio realmente esbranquecia!

Obviamente a R. já pensou em como ganhar dinheiro em cima disso: vendendo uma nova idéia publicitária para a Ariel. Começo da propaganda: imagem de uma banheira toda manchada e caras de terror. Aparece o Ariel. Umas leves esfregadas (obviamente, na propaganda, a gente não vai botar um cidadão de cueca, óculos de mergulho e camisa na cara...) e tchamn-tchamn a banheira branquinha de novo!

Bom, mas voltando a odisséia... Não, não acabou... Quando estamos todos felizes achando que com mais uma hora de esfregação o negócio vai estar limpo (na verdade, mais limpo que antes: um produto cancelou o outro e o sabão lavou os dois) ouvimos a campainha... Eu pensei, era só o que faltava...

Eu me tranco no banheiro e a R. vai atender. A casa uma bagunça com os preparativos da mudança. Era a vizinha de baixo perguntando se a gente estava tendo problemas com o banheiro, que na casa dela havia água escura inundando o banheiro desde o teto...

Nessa hora pensei: Como dizia a madre superiora do colégio Cristo Rei lá de Marília: Puta que Pariu... Saímos do forno pro microondas... Agora não vamos ter que pagar a banheira mas temos que pagar alguém pra quebrar a parede e ver onde o ácido queimou o cano!

Durante toda a conversa, eu trancado no banheiro, a R. na porta e a vizinha tentando ver o que estar acontecendo pelo fresta da porta. Essa mulher deve ter pensado que haviamos matado alguém e estávamos tentando nos livrar do corpo em pequenos pedaços pela privada... Era a única explicação plausível.

Dizemos que vamos falar com o admnistrador em breve, pra ganhar algum tempo. Minha idéia é limpar a banheira antes de que o cara venha, pra não sermos responsabilizados por ter posto produto químico nenhum... O problema é que falta ainda metade da banheira...

Meus braços nunca trabalharam tanto em tão pouco tempo... Houve um momento em que eu estava como o pintinho daquela piada antiga, aquele que fumou um cachimbão de maconha: "não estou sentindo nada...". Não sentia os braços, não sentia as pernas, não sentia nada...

Finalmente acabei, depois de uns cinquenta minutos e mais uma visita da vizinha. Nas suas palavras agora existe um rio... Eu fiquei cá, a cabeça torcendo que fosse aqueles riozinhos que secam durante oito meses ao ano da minha saudosa Paraíba, enquanto o bolso (fdp) só conseguia falar de Amazonas, Nilo e, na melhor das hípótese, São Francisco!

Enfim... chamamos o administrador. No caminho passamos na vizinha e vamos ver o tal rio... Na verdade, meia tigelinha de uma água marrom clarinho! Se o alívio não tivesse sido maior que a raiva, juro que diria umas tantas coisas. Mas, verdadeiramente, a alegria de ver que o Amazonas não passava de umas gotinhas foi superior! (Em tempo, esta água provavelmente havia escorrido do chão do banheiro, que estava todo molhado, ou seja, não tinha nada que ver com o meu ácido ou nada).

Finalmente, vem o administrador, que deve ter visto a banheira mais limpa da vida dele! Catuca e catuca o ralo e, finalmente, nos pergunta se poderíamos, por favor, ficar sem a banheira até o dia da mudança... A esta altura do campeonato já era melhor pra gente mesmo, do que ter um encanador em casa, fazendo mais sujeira do que aque já temos que limpar...

Bom, mas tudo isso pra dizer que ontem fomos tomar banho na tua casa... "


Blog: Comédias da Vida Gelada
Era uma vez... uma máquina de lavar roupas...

Eu não posso falar sobre como está sendo a minha vida aqui em Cracóvia sem antes contar uma história que se confunde um pouco com a minha, aqui na Polônia: a história da máquina de lavar roupas. Quando eu morava no Brasil, eu tinha uma máquina de lavar que eu gostava muito, apesar dela de vez em quando resolver sambar e passear pela minha área de serviço. Ao mudar para a Polônia fui viver num apart hotel e lá eu não tinha uma máquina só para mim. Eu tinha que mandar tudo para a lavanderia e pagar por isso os olhos da cara. O tempo passou e eu descobri que havia uma máquina de lavar roupas no apart e que poderia ser usada pelos moradores. Uma máquina turbinada, modernérrima, que lavava, secava e quase passava de tão boa que era. No início foi até difícil usá-la, mas o Valone e a Roberta conseguiram decifrar o manual e daí ficou uma pouco mais fácil. O problema é que todas as esposas do apart também descobriram e usar a tal máquina era quase um parto. Sem contar que havia ainda algumas esposas mal-amadas que arrancavam a nossa roupa ainda molhada da máquina e as jogavam no chão para poder colocar as delas. Mas pula esta parte, senão a história vai ficar muito grande... Durante os três meses que eu morei no apart, meu maior sonho era ter uma máquina só para mim. Chegava a imaginar a minha máquina no meu banheiro (sim, aqui as máquinas ficam no banheiro) e eu colocando as roupas dentro com toda a calma do mundo e depois as pegando cheirozinhas, sequinhas... Até que eu mudei para o apartamento da Wielicka e lá eu tinha uma máquina só para mim, mas não era aquela do apart, mas tudo bem, era melhor do que nada. Eu lavava as minhas roupas quando eu queria, colocava no varal, demora um século para secar, mas pelo menos eu tinha uma máquina no meu banheiro. Só que como todo mundo sabe, no último fim de semana, eu me mudei para Cracóvia. E todo mundo sabe também que eu estou adorando o novo apartamento que tem, como eu já falei, vista para o Castelo de Wawel. Mas o melhor de tudo mesmo é que agora eu tenho uma máquina de lavar roupas igualzinha àquela do apart só para mim. Vocês não imaginam a minha felicidade. Eu coloco as roupas quando eu quero e ela lava, seca e eu tiro quando eu quero pois não tem ninguém esperando para usar. Não é uma maravilha? Tudo bem, pode ser que alguém ache a minha história ridícula, mas eu não estou nem aí, pois agora eu tenho uma máquina de lavar turbinada, modernérrima, no meu banheiro, só para mim e isso é um detalhe que faz a maior diferença. Agora deixa eu ir lá, pois vou colocar mais umas roupinhas na máquina de lavar. rs... Beijinhos para todos!


Blog: Pierogi Brasileiro
peh na estrada e estrada no coracao

a cada nova mudanca aprendo um pouco mais sobre mim mesma e sobre as pessoas em geral. acho que meu vicio por coisas novas vem da necessidade de novos desafios e encontros mesmo. melhor assim, estou no lugar certo.

jah disse outras vezes que nao troco minha vida por nada, nao eh? mas nao comecem a ter inveja pois nem soh de plumas, paetes e novos destinos se faz uma boa vida. se eu nao tivesse ao meu lado uma pessoa maravilhosa tenho certeza de que nada disto valeria a pena. as pedras no caminho sao muitas e muito dificeis, novas a cada nova mudanca. tenho que ter um jogo de cintura e uma capacidade de adaptacao que estao acima de qualquer medida.

para os candidatos a colocar o peh na estrada um conselho, nao, um aviso : pensem bem antes, avaliem os riscos e o que voces estao procurando pois a caminhada eh dura. no meu caso vale a pena, mas isto eh especificamente no meu caso. jah tive oportunidade de encontrar com varias pessoas que nao encontraram a felicidade tendo um tipo de vida mambembe e estao tentando sair desta a qualquer preco. como tudo, tudinho nesta vida, cada um tem que buscar seu caminho. agora, se voce sente que eh este seu destino, nao deixe passar a menor oportunidade, eu nao deixaria.

aqui em dubai me descobri novamente. sinto-me diferente e, ao mesmo tempo, a mesma pessoa. o sol, o mundo arabe, alguns amigos, tudo isto tem tornado minha chegada neste lugar desconhecido um tanto... conhecida!

nossa mudanca chegarah apenas no final do mes, entao, ateh lah, estarei vindo algumas vezes aqui neste cafeh internet (este eh bem perfumadinho) para mandar noticias. ateh jah.


recorde mundial

a megalomania dos governantes deste emirado eh incrivel, e eles adoram quebrar recordes mundiais : a mais longa passarela suspensa, a maior bandeira, o maior predio (esta sendo contruido pela segunda vez, parece que na primeira tentaiva ele caiu), as maiores ilhas artificiais, o maior aeroporto... e assim vai.

os campos de obra sao imensos e interminaveis, eh realmente impressionante ver o movimento desta cidade. por isto nem me assusto mais quando abro o jornal na sessao de empregos e vejo mais da metade do espaco ocupada com ofertas para engenheiros (a outra metade tem ofertas para camareiros, garcons e recepcionistas em hoteis). estou no paraiso dos engenheiros e arquitetos, incluindo os arquitetos de interiores, pois eles adoram pensar os ambientes com tematicas diferentes.

aqui estah o hotel 7 estrelas em forma de vela de barco, um outro hotel em forma de onda, um shopping sob piramides e decoracao egipcia, um outro que imita veneza e os modernissimos predios de escritorios em volta da "creek".

dubai nao eh uma cidade que encanta aa primeira vista, mas impressiona.

o que dizer de uma cidade que tem o "the palm", ilhas contruidas em forma de um grande coqueiro no meio do oceano (mas perto da praia), a maior contrucao de ilhas jah feita pelo homem e que pode ser vista do espaco? e que estah contruindo mais de 50 ilhas artificiais, cobrindo 300 hectares de terras e que, vistas do ceu, terao a forma do mapa mundial? pois eh. todos nos podemos comprar uma pequena porcao deste paraiso que estah surgindo, neste pedaco do mundo que comeca a aparecer para o mundo aih fora. por uma pequena fortuna voce tambem pode ser vizinho de um sheik milionario qualquer ou de beckam, se voce tiver um pouco mais de sorte.

a primeira vista tudo isto parece estranho. mas o que disseram dos franceses quando comecaram a construir o castelo de versailles ou dos americanos com o empire state? o oriente medio estah construindo sua historia e nos temos a oportunidade de estar aqui fazendo parte dela.


Blog: Mambembe

24 de set de 2004

Dicas pra sobreviver fora do Brasil!


Esse post, eu escrevi ha' varios alguns meses la' no blog e as reacoes foram super interessantes. Muita gente me escreveu dizendo que tem tido uma postura muito negativa e que esse post ajudou a ver as coisas de outra forma. Por isso, resolvi reproduzir (e adaptar um pouquinho) aqui:

(...)

Viver fora do seu pais nao e tao facil. Mas eu acho que é muito importante ter não somente uma visão positiva, mas mesmo uma postura positiva, pra ser feliz.

Fiquei pensando no que eu diria pra alguém que mudou pra outro país, ou está pretendendo mudar, para que possa ser mais feliz. Acabou ficando uma lista muito grande, mas você pode ir lendo aos poucos, uma coisinha por dia... ah, e acrescente outras nos repliess, OK? lembrando sempre que essa é a minha perspectiva e não quer dizer que todo mundo deve seguir ou concordar comigo!

1. Não esqueça nunca de onde você veio, sua pátria fez de você o que você é, mas deixe isso guardadinho em algum lugar no seu coração, não fique falando ou pensando nisso o tempo todo e comparando os dois países. Agora você está começando vida nova e deve isso a você e à(s) pessoa(s) que está(ão) lhe acompanhando nessa jornada.

2. Em ambos países você vai encontrar coisas boas e ruins, a diferença é que estamos sempre mais acostumadas com as coisas ruins de onde viemos. Existe coisa pior que ver crianças nas ruas passando fome, pedindo dinheiro, cheirando cola? quem diria que alguém pode se acostumar com isso? mas nos acostumamos, não é?

3. Tente esquecer os estereótipos. Esses são apenas caricaturas, e estamos convivendo com pessoas reais. Nem sempre brasileiros são tão amigáveis e nem sempre os "gringos" são tão "frios". Gosto de lembrar uma festa que eu fui na Suécia há vários anos atrás. Aniversário de 70 anos (imagine), achei que ia ser um tédio mortal, mas nunca fui tão bem tratada e me diverti muito. Literalmente TODAS as pessoas da festa vieram falar comigo, se apresentaram, perguntaram sobre mim, foram extremamente gentis, pessoas de todas as idades. Cerca de um mês depois fui a uma festa, em São Paulo, na casa do meu irmão. Uma turma descolada, do "mangue beat" pernambucano em Sampa. Praticamente ninguém falou comigo. Não conhecia ninguém e ninguém fez questäo de se apresentar. Portanto, tudo é relativo.

4. Outro estereótipo que eu detesto é que só brasileiro sabe se divertir, que a vida aqui é monótona, que os shows não tem emoção. Já comentei aqui no blog um show que fui do Blur, banda pop britânica, que eu adoro. O show foi o melhor da minha vida. Todo mundo se divertiu muito, dançou horrores, gritou, se emocionou. Com uma diferença, não tinha bebida. Acabou o show, todos sairam ordeiros pras suas festas pós-show ou pra casa. Ninguém quebrou os pontos de ônibus ou fez bagunça nas ruas. Adoro isso! Talvez você não esteja tendo oportunidade, ainda, pra se divertir mas isso não significa que os "locais" estão tendo uma vidinha tão insípida assim!

5. Quando se quer falar que as pessoas da Europa são frias, se diz que eles entram no metrô e enfiam o livro na cara, não olham, nem falam com ninguém. Bem, pelo menos em Recife, não vejo ninguém puxando conversa em ônibus e quando fazem isso as pessoas já ficam com medo, pensando que é um assalto. Não vamos ter expectativas exageradas do povo daqui, né?

6. Que tal porcurar o lado positivo das pessoas do local? aqui eles são honestos, ordeiros, organizados... isso tudo pode ser bom... são "sovinas", "neutros ao extremo", "arrogantes"... então vamos tentar achar isso engraçado?? enfim, aprender a conviver com o que a gente tem, pode ser a regra de ouro da felicidade!

7. Não adianta reclamar do clima. Tá frio? tem que se agasalhar. Aqui, na Suécia, se diz que "não existe frio, mas gente mal agasalhada", Ok, é um certo exagero, aqui tem frio e muito. Mas, não há nada que se possa fazer em relação a isso, é o que digo sempre à Bia. Entäo, vamos tentar ver o lado positivo... você não vai ficar toda suada, pode usar uma linda maquiagem que não derrete e dura a noite toda, as roupas são lindas, a gente fica mais elegante. E o que eu adoro... diminui a ditadura do corpo perfeiro, ninguém tá vendo tudo mesmo, fica todo mundo mais ou menos na mesma "posição". Ah e eu adoro abusar de luvas e cachecóis lindinhos (e baratos!).

8. Quando sair de casa, olhe a cidade com olhos de turista, pense "gente, quantas pessoas não adorariam estar vendo essa cena, hoje, e eu estou aqui?" estou sempre descobrindo novas facetas da cidade, novas caras. Pego o metrô e me delicio vendo Gamla Stan, TODAS as vezes que passo por ela... estar num lugar lindo é um privilégio que, às vezes, a gente esquece. Eu já fazia isso em Olinda,
quando ia entrando na cidade eu pensava "e os gringos pagam uma nota pra ver minha cidade, que é tão linda e eu tenho de graça, todo dia!".

9. Valorizar essas pequenas coisas do lugar em que você vive é fundamental. Você não gosta da comida? sempre tem UMA coisinha pelo menos que você vai gostar. Ai, se delicie com ela, ao invés de ficar procurando feijão e goiabada nas lojas especiais. Não tenho quase nenhuma saudade da comida do Brasil. Esqueço que ela existe, por que não é mais uma opção pra mim e não dá pra se viver de ar, nem de nostalgia. Adoro kokosbola, adoro as verdurinhas congeladas, adoro cuscuz marroquino, amo iogurte de blueberry... queijo de coalho?? o que é isso?

10. Não deixe a saudade acabar com você. Mais uma vez, lembre-se que foi sua OPÇÃO... essa é a palavra chave. As pessoas que ficaram no Brasil e lhe amam querem ver você bem. Seja feliz e deixa a saudade, também, guardadinha lá no fundo do coração.

11. Evite viver em guetos. É muito legal encontrar brasileiros, trocar idéias (mas evite ficar só falando mal do país e das suas saudades do Brasil!), ouvir nossa música juntos, mas não se restrinja a isso. Tente estabelecer contatos com pessoas nativas do país e outros migrantes. Absorva novas culturas, isso é refrescante, revitalizante. Saber que existem culturas diferentes da sua e respeitá-las é o primeiro passo para a tolerância.

12. Aprenda o idioma local. Mas "take your time", faça-o quando você se decidir (também não vale esperar mais de um ano pra começar!), se puder se virar em outro idioma. É fundamental aprender o idioma, mas é melhor se você estiver com a mente aberta, e às vezes é necessário um tempo para adaptação.

13. Pense que, pelo menos no começo, você é um(a) turista com mais tempo pra conhecer a cidade... vá visitando tosos os museus, mas agora com muito mais tempo, um por dia, vá conhecendo todos os pontos turísticos, a cidade tem muito a oferecer e você tem tempo... e lembre que, muitas vezes isso pode custar pouco ou quase nada.

14. Não se deixe contaminar pelo mal humor de outras pessoas. Evite as longas conversas do tipo "eu odeio esse país por que...". Desmonte seu parceiro de papo mostrando tudo de bom que você encontrou aqui.

15. Lembre que você não está sozinha e seu mau humor vai contaminar os outros. A maioria de nós, pelo que percebi nos blogs, veio parar aqui por AMOR. Viemos por que quisemos, eles (ou elas) podiam ter mudado pro Brasil, mas, nesse momento, decidimos que a melhor opção é viver fora do Brasil. Então, respeite a pessoa que você ama, respeite sua cultura, suas tradições, seu país. Evite conflitos do tipo "se eu estivesse no Brasil seria diferente". Pode ser um atalho pro amor ir embora. Ah, e exija respeito com o Brasil também!

16. Use e abuse da Internet. Não apenas para matar as saudades do Brasil, saber notícias de lá, se comunicar com sua família... mas também para ir descobrindo sua nova pátria, visitando os sites de turismo da sua nova cidade, descobrindo o que tem para oferecer. Visite o site do Governo local, veja quais os direitos e deveres que você tem, como imigrante, conheça mais da cultura local.

17. Faça seu blog. Eles são uma delícia, você encontra grandes amigos e compartilha com outras pessoas as suas experiências.

18. Nossa música é a melhor do mundo, certo? sem dúvida, mas não custa experimentar novos tons. A palavra mágica para um imigrante é EXPERIMENTAR. De tudo, música, dança, comida, bebidas, tudo que estiver ao seu alcance.

19. Imigrante não é um palavrão. Entre 1800 e 1930, não menos que 1.5 milhão de suecos tornaram-se imigrantes na America do Norte. É tudo uma questão conjuntural. Quantos portugueses, italianos, espanhóis, ingleses, não acolhemos no Brasil? Ainda mais num mundo globalizado como esse, somos todos, cidadãos do mundo!

20. O mais importante de tudo... NUNCA, mas NUNCA mesmo se sinta inferior aos nativos do país. Você está lá por uma contingência da vida, não está lá pra se aproveitar do país deles. Está se sentindo discriminado, procure um órgão que defende o imigrante, que existe em quase todo luga... denuncie... a discriminação é velada? ignore, despreze... quando eu acho que alguém (geralmente os mais velhos) pode estar olhando pra mim com alguma discriminação sempre penso "coitado, nem imagina tudo de bom que eu tenho no meu país"... e lembre sempre que você tem um enorme valor e pode trazer grandes contribuições para o seu novo país. Lembre sempre que a França nunca teria sido campeão do mundo, se não fosse Zidane, que tem origem na Argélia.

E viva as diferenças!!!!


Blog: Síndrome de Estocolmo
Pessoas de gosto duvidoso como o meu deveriam ser proibidas de sair de casa quanto estão com preguiça. Fui comprar pão e levei muitos olhares de repreensão. E olha que o forte dos belgas passa longe do senso estilistico.

Resolvi me matricular no ultimo nivel da escola de holandês que frequentava antes. Meu curso de holandês normalmente termina no final desse mês, mas eu não queria perder o contato com professoras de holandês (pra tirar duvida nas horas de aperto) e também não queria perder a oportunidade de conhecer outros estrangeiros, o que eu considero a experiencia mais valiosa quando você frequenta aulas desse tipo.

Somos em quatro: uma freira encapuzada da Martinica, um senhor que tem cara de caminhão de japonês, mas eu acho que deve ser de algum país com final "ão", uma congolesa OTEMA e eu, claro. Falo que a congolesa é otima porque a freira e o homem são chatinhos. Não, não é só uma questão de referencial. A congolesa é realmente muito simpatica e engraçada.

E por falar nela, a coitada tomou um susto quando me perguntou de onde eu era: "o que? Brasil ? Mas você é tão branquinha!" Eu ri, claro, e complementei dizendo que a minha bela cor azul é resultado dos escassos raios solares que atingem esse planeta chamado Bélgica.

Pois que eu perguntei pra moçoila o que ela tinha pensado antes em relação a minha nacionalidade. Senti que ela ficou sem graça e acabou soltando um "russa". Mas eu sei que ela pensou que eu fosse de algum país arabe, mas por razões obvias preferiu "não me deixar chateada com a opinião". Claro que eu não ficaria chateada e essa nem seria a primeira vez. Na verdade, eu morro de curiosidade pra saber o que os belgas pensam quando me veem. Sera que eles concluem a mesma coisa? Eu não me acho com cara de nada, mas se eu tivesse que chegar a alguma conclusão, chutaria algo do tipo por conta dos meus zolhão.

Por que não inventaram ainda uma gravador de pensamentos? Dirigi da padaria até aqui pensando em milhares de coisas diferentes, encadeando um pensamento atrás do outro numa linha mais ou menos lógica. Chegando na frente do computador, fica dificil de relatar. Imagina que maravilha se pudessemos enfiar o dedo na narina esquerda e imprimir numa tira de papel de um centimetro as palavras-chave dos ultimos dez minutos de pensamento? Ou na narina direita e imprimir a ultima meia hora? Como diz mamãe, o homem vai a lua, mas não sabe ainda como comer uma manga sem se lambuzar... puff

Agora nessas aulas de holandês (que acontecem só uma vez por semana) estamos aprendendo um pouquinho de dialeto. Tsc tsc tsc.. Um exemplo :
Ik zou (eu gostaria) - holandês padrão
Em dialeto: k'sum.
Hummm... Então tá bom! Depois eles não entendem porque muitos estrangeiros não querem aprender uma língua que no dia a dia eles não tem como usar. Lembrando: você aprende holandês padrão na escola, mas na rua todos falam dialeto. E a cada 25km, o dialeto muda.

O Daan voltou da Grécia e me trouxe uma pasta de azeitona. Ah, que coisa maravilhosa! Também me trouxe sabonete de oliva, azeite e melancia. Acreditem! Ele trouxe uma melancia...hohoho. E digo pra vocês: essa é a primeira melancia que como aqui que tem gosto de melancia.

Coisas que me deixam feliz :
- lençóis de algodão limpinhos e cheirosos
- melancia geladinha
- sabonete. Adoro sabonete!
- Salada de alface, tomate, cenoura raladinha com muito azeite de oliva.

Então vocês já sabem que meu humor melhorou bastante nos ultimos dias.
E tenho dito!


Blog: Cala-te boca!
Meditaçao

Voce pode chamar de meditaçao o que bem entender, eu nao ligo.
Aqui nessa casa meditaçao eh sentar na varanda, com o rosto bem na direcao do sol, fechar os olhos e pensar que estamos na Praia do Flamengo. A areia amarelinha sob os pes, o ceu bem azul, o mar calminho de manha.

A gente tambem fica narrando um pro outro o que esta acontecendo ao redor:
- Olha la o pescador vem vindo com um vermelho enorme, e um polvo na outra mao.
- Vamos na agua? Quero aproveitar que a mare esta vazia e tomar banho nas piscinas naturais.
- Ah, mas eu tenho que terminar a minha agua de coco primeiro.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Ou entao... Inverno comendo solto la fora, a gente acorda e pergunta ao outro:
- A que praia voce quer ir hoje?
- Ah, nao sei. Alguma coisa perto. Tem muito transito no caminho de Praia do Forte.
- Ta bom. Mas eu quero almoçar la no Yemanja depois da praia.
- Hum-hum. Vou ligar pra ver se minha mae quer ir com a gente.

Nao tem meditaçao melhor que essa nao, meu senhor.
Pode chamar todo mundo aqui de doido. Nos somos doidos sim... doidos de saudade.


Blog: Baianices

26 de mai de 2004

Dose para Leão

Fui contratada para trabalhar no posto de gasolina. É um posto completo, parada de caminhões, com restaurante, lanchonete, pizzaria e venda de artigos de primeira necessidade. Fica aberto vinte quatro horas. Bem na esquina das avenidas 62 com 126, do lado da agência do correio. Do outro lado, tem o Mc Donald’s e o banco "People"s . Na frente, a lavanderia e uma das oficinas mecânicas. É na avenida 62 que o xerife fica de tucaia para pegar os que excedem as 45 milhas. Tem vez que ele se esconde no posto, no meio dos caminhões que estão estacionados, o salafrário. Tudo isto, a três quilômetros de nossa casa.

Nem foi entrevistada. Cheguei, solicitei o formulário de pedido de emprego, preenchi e devolvi. Nem saí da loja e o gerente veio lá dos fundos para me conhecer e me dizer onde eu devia ir para os exames médicos e quando eu poderia começar. Salário? Eu me esqueci de perguntar qual era. Telefonei depois e fiquei sabendo. Tudo bem.

Tive que aprender a funcionar o caixa, as mil maquininhas de cartão de crédito, de débito, cartão de cliente que tem conta tipo 'pendura aí que depois eu pago', mais os cartões dos motoristas de caminhões e os cartões que devem funcionar nas bombas de combustíveis, mais aquela pingolinha enjoada que não passa de um chaveiro e que deve funcionar como um cartão mas sempre dá encrenca e mais e mais... Tudo bem.

Tive que aprender a preparar as pizzas do jeito deles, com as medidas certas, o número correto de fatias de presunto, a canequinha certa de molho, a temperatura correta do forno e o tempo exato de assar. Tudo bem.

Tive que varrer chão, limpar prateleiras, varrer estacionamento, levar o lixo para o container lá fora, destravar a merda do maquinário do lava-jato, preparar o sabão pro lava-jato, limpar, lavar, esfregar, de chão da loja a panelas na cozinha. Tudo bem.

Tive que lavar banheiros…misericórdia!…isto foi dose! O das mulheres não era tão miserável mas, o dos homens! Não vou entrar em detalhes porque é nojento demais. Mas, a gente bota dois pares de luvas e seja o que Deus quiser.

Tive que fazer lista de pedidos de compras, desempacotar as compras na chegada e colocá-las nas prateleiras, arrumar o frigorífico, guardar as caixas dos congelados nos freezers, fechar o caixa, organizar a papelada e calcular os números no final do meu expediente. E fazer café, desmontar a máquina de sorvete e lavar ela todinha, limpar as estufas dos salgados. Até aí, tudo bem, muito bem mesmo.

***

É verão e dos brabo! Eu, atrás do balcão, no caixa. Entra um homem de seus trinta e caquerada. Alto, loiro descabelado, branquelão. Vestido de bermudas de calça cortada, butinão esgarçado, camiseta branca imunda e suada. Ele vai ao banheiro. Na volta, passa pela máquina de café e se serve de um copão enorme. Acrescenta o creme e muito açúcar.

Quando estaciona na minha frente e põe o copo no balcão, eu vejo que as mãos dele estão absolutamente pretas de sujeira. Não era sujeira de óleo, terra, qualquer coisa reconhecível. Era craca mesmo, encardida nas linhas das palmas, era falta de água e sabão por uns doze dias meeeeesmo. A imundície ia até os cotovelos, mais ou menos.

- São um dólar e setenta centavos, digo.

Ele enfia a mão no bolso dianteiro, tira uma bola de notas amassadas e joga dois dólares no balcão. Nem dinheiro de pedinte da escadaria da igreja São José é tão mal tratado e embolado deste jeito.

Pego o dinheiro... está MOLHADO de SUOR!! "Ô.. meu bom Deus..." Os cabelos de meu cangote estão todinhos em pé, de tanto nojo. "O bolso da frente... suado deste jeito, a ponto de empapar o dinheiro... meeeeu Deus, tenho que lavar as mãos URGENTE... suor do saco do cara...ááiii que não vou conseguir despistar". Mas, tudo bem, despisto. Boto o dinheiro do lado de fora da gaveta para secar e devolvo o troco.

Quando olho de novo para ele, noto uma coisa estranha. O lábio inferior está estufado, muito estufado e tem uma coisa marrom aparecendo. É uma bolota de um treco marrom horrível, bem alí entre os dentes de baixo e o lábio.

Ele me diz alguma coisa que não entendo e peço para repetir.

- owf ...ar...omm...ountn...ommm...?
- Desculpa. Ainda não entendi. O senhor pode repetir, por favor?

Ele me faz um sinal de peraí com a mão preta, caminha até a porta, estica só a cara lá fora e dá uma cusparada de uns tres metros de distância, bem na frente da loja, bem lá no meio das pessoas que vinham entrando. Aquela coisa nojenta, parecendo bosta de gato, se espalha no estacionamento, junto com uma tinta marrom que deixa um rastro até o passeio.

Ainda estou com os olhos esbugalhados, tentando entender de que se trata, quando ele me pergunta, alto e claro "Qual a distância daqui até Mountain Home". A bolota do beiço tinha desaparecido. Mais tarde fico sabendo que era fumo de mascar.

Dou a informação e é a conta. Ao ouvir meu sotaque, ele arregala os olhos como se estivesse ouvindo uma marciana cantando em noite de lua cheia.

- De onde você é????? Você NÃO é daqui!!! De onde??
- Do Brasil. Respondo, já meio prevendo, como diria meu avô Gilberto, "lá vem bosta".
- Do Brazil? Verdade? É mesmo? Do "Brrezzill"?? Oh, meu Deus...

Continuo esperando...lá vem bosta, lá veem... Dito e feito:

- Imagine... deve ter sido um TREMENDO CHOQUE CULTURAL para você! Vir daquele lugarzinho tão pequeno para este primeiro mundo...Ohh, my! Tenho até pena de você, do TREMENDO CHOQUE CULTURAL que você deve estar passando por... E ele fica lá parado, esperando minha resposta...
- Próximo! Eu grito. Sorte minha que a fila estava grande.

Tudo bem-tudo bem, até certo ponto! Paciência tem limite!

Blog: NEGERIGELETSCHTEMPOIT

19 de mai de 2004

Peixe fora d'agua

"Quase toda a minha vida, eu fui uma estrangeira, condição que aceito por
não ter outra alternativa. Várias vezes vi-me obrigada a partir, rompendo
laços, deixando tudo para trás para recomeçar a vida em outro lugar".

(Isabel Allende, "Meu país reinventado")



Eu tinha encomendado esse livro e chegou agora há pouco na livraria da
editora onde trabalho. Fui lá buscar e, no caminho de volta para a minha
sala, vários pensamentos foram me passando pela cabeça.

É que ontem à noite eu reencontrei uma amiga carioca que eu não via há pelo
menos uns bons 4 ou 5 anos e de quem, na verdade, eu nunca fui muuuito
próxima. Sempre quis guardar contato porque das poucas vezes em que
conversamos nós falamos durante horas a fio. Ontem não foi diferente : nos
encontramos na saída do meu trabalho e fomos passear por Paris e jantar
crêpes. Das 7 da noite até às. 4 da manhã (!), a gente não parou de
conversar - e ficou ainda muito assunto pendente.

Um dos assuntos foi justamente a expansão de horizontes que acontece quando
se mora em outro país. Conhecer outras maneiras de vida, novos pontos de
vista, opiniões e práticas culturais até então desconhecidos é
enriquecedor - mas poderia ser apenas uma anedota para contar para os amigos
do antigo país. Tenho até hoje amigos no Brasil que não saem do
estereotipado « falaê, francês toma banho ou não toma, afinal ? », morrendo
de rir e se achando super por dentro dos hábitos franceses.

Claro, já é um primeiro passo ser capaz de ver que há uma diferença. Outra
coisa muito diferente é tentar entender essa diferença, não no contexto da
tua cultura mas sim inserida na cultura do outro. Franceses são rabugentos e
atendem mal no restaurante ? Sim e não. Para os parâmetros da cultura
brasileira, sim; no contexto cultural francês, não, eles estão sendo «
normais ».

Mas acho que o verdadeiro aprendizado quando moramos no exterior é
conhecermos nós mesmos. Primeiro, porque estar fora é trazer consigo, sem
perceber, todo o Brasil ; o que vai nos emocionar, o que vai nos dar
saudades, a maneira com que vamos começar a entender nosso novo país passa
pelo contexto cultural brasileiro. Mas, mais do que isso, para a maioria dos
estrangeiros nós incorporamos à primeira vista a imagem do "ser brasileiro";
transformamo-nos em uma caricatura, um estereótipo, não sou mais ' a
Flabb ', sou ' todas as brasileiras '. Na França os clichês falam de
futebol, mulatas inzoneiras sambando, bossa nova e cirurgia plástica ; devo
então decidir, a cada instante, se distancio-me ou se incorporo esses
clichês. Qualquer que seja a leitura da minha ' persona ' por estrangeiros,
o referencial passará sempre pelas informações que eles têm sobre meu país.
E, ao constatar a forma com que me vêem, é impossível eu não me questionar :
« sim, eu assisto jogos de futebol durante a Copa do Mundo, mas serei eu uma
brasileira típica ? O que fazer agora, reforço o estereótipo mostrando a
bandeira no peito, com orgulho, ou fujo totalmente e renego minhas raízes
culturais? ».

(Intermezzo - Nem tanto ao mar nem tanto à terra, Flabb, dir-me-ão vocês -
uia, estou cheia de mesóclises e afins, hoje. « Eu sou eu e pronto, não
tenho que agradar ninguém ». Ai meu jesuscristinho. Não estou falando de
mudar para se mostrar pra estrangeiro não. Estou falando da mudança na
percepção de auto-identidade de um brasileiro que vai morar fora - não, de
qualquer pessoa estrangeira, longe do seu país. Podemos continuar ?).

O segundo ponto desse processo de auto-conhecimento é algo que eu já tinha
pensado, mas não ligado ao fato de ser estrangeiro. Isso foi minha amiga que
disse ontem e achei interessantíssimo. Ela disse que, após viajar um mês
pela Europa e ter conhecido uma boa centena de pessoas de várias
nacionalidades, ela tinha aprendido muito sobre si mesma. A cada vez que
precisava se apresentar para alguém, ela percebia que não tinha mais os
referenciais que tinha no Rio - a linguagem não era mais a mesma. Uma frase
como ' Oi, eu sou a Fulana, prima do Sicrano, trabalho na empresa Mar do
Norte, moro em Copacabana, fiz a faculdade Diplomão ' só funciona se o
receptor, quem está ali do outro lado ouvindo, consegue decifrar ' o quê '
cada uma daquelas pistas quer dizer. Se você está se apresentando para um
polonês ou um marroquino, de quê adianta falar da faculdade Diplomão ? E aí
você tem que buscar outras coisas dentro de você, para se apresentar - e
percebe que não sabe bem como se definir de verdade.

Ver seu país de longe ; dar-se conta que seus hábitos, que eram até então a
norma de vida, podem ser considerados exóticos por outros ; ter que
pesquisar quem somos, de verdade, quando não podemos utilizar a muleta das
explicações fáceis ; construir uma identidade dentro de um novo ambiente,
posicionando-se em relação ao que pessoas que nunca me viram pensam de mim e
da minha nacionalidade ; tudo isso é um pouco como ser um passarinho que é
levado para o oceano (ou que resolve ir, ou que se apaixona por um peixe, ou
que está fugindo das águias) e precisa decidir se compra um escafandro e se
adapta, se ' voa ' por entre os corais mostrando com orgulho que é pássaro,
se continua reclamando que está difícil porque ' esses peixes são
esquisitos, respiram na água, eu hein ', e que principalmente precisa se
conhecer para poder dizer quem é indo além do ' eu morava no 3° galho à
esquerda da cerejeira. '

Em tempo: sou passarinho escafandrado e cumprimento feliz os peixinhos que
passam. Mas olho com um gosto pro céu azul...

Blog: Tonterias

16 de mai de 2004

AAAAHHHHHHHHH, CHEGUEI!!!!

Depois de 20h de viagem (Winnipeg - Toronto - São Paulo - Rio de Janeiro), estou de volta, pisando em solo tupiniquim.

Resolvi fazer um balanço das coisas boas e ruins que eu vivi e senti nesses últimos 6 meses. De vez em quando bate aquela sensação de tempo perdido e um certo desespero até, mas eu paro pra pensar em tudo que aprendi com essa experiência. E posso dizer com toda a certeza do mundo que valeu.

Aprendi que...

... morar em outro país, é uma experiência maravilhosa.
... meu inglês é uma porcaria.
... algumas daquelas pessoas que eu tanto considerei não se importam comigo.
... aquelas que nunca dei muita atenção, me consideram muito.
... tenho amigos de verdade e agora eu sei quem eles são.
... só se pode sair na neve se o sapato tiver solado de borracha.
... posso me virar bem sem a minha mãe por perto (mas não gostei não).
... tudo que eu achava que nunca ia fazer, nem é tão mal assim.
... a comida brasileira é indiscutivelmente maravilhosa.
... as guloseimas de lá são indiscutivelmente mais deliciosas.
... um monte de canadense acha que se fala espanhol no Brasil.
... mesmo com todos os problemas, o meu país é o melhor lugar para EU viver.
... lá eles escrevem o meu ANNA da forma correta sem eu ter que corrigir.
... morro de medo de patinar no gelo.
... morar com o Cris é ainda melhor do que eu podia imaginar.
... no Canadá não tem catupiry, guaraná nem farinha pra fazer farofa.
... só quem é maluco consegue viver num lugar onde 50% do ano a temperatura fica abaixo de zero.
... eu não devo bater muito bem da bola, pois escolhi logo a metade gelada.
... no Canadá, grande parte das pessoas são geladas como o clima.
... criando um blog a solidão é bastante amenizada.
... ter gatos é tão gostoso quanto ter cachorros.
... cuidar da minha própria casa é muito divertido.
... quero passar o resto da minha vida morando no meu país.
... eu não sou mais a mesma que antes.
... devo dar mais valor ainda para as coisas simples da vida.
... às vezes somos obrigados a amadurecer na marra e no final das contas, isso é muito bom.
... aprendi muito mais coisas que não consigo me recordar agora.
... ainda tenho muito o que aprender.

Agora, com licença que eu vou comer um camarão com catupiry...

Blog: ANNA PAULA Voce nao tem jeito mesmo

4 de mai de 2004

A Claudia mora na Finlandia (vao la' olhar no mapa!) e quando li este post lembrei do Rio e de Sao Paulo....

Estou super cansada, mas o ocorrido de agora eu fiquei com vontade de contar.

Fui visitar um casal de amigos ingleses, a Clare e o Matt, tava ótimo! O Matt fez um jantar delicioso, e ficamos naquelas conversas que vão engrenando uma na outra e não param nunca! Com mímicas, risadas e muito vinho.
Ficamos tão entretidos na conversa que eu esqueci dos horários dos ônibus (vocês sabem, não estou muito acostumada com essas coisas... Fico sempre achando que o Kadetinho preto ta na porta :). Dai fomos correndo olhar na internet se ainda tinha algum ônibus: o Matt disse - se vc sair correndo agora, entrar na Helsinginkatu e virar na segunda a direita voce pega o ultimo tram! (Os trams são uns negócios parecendo uns bondinhos só que com aparência hi-tech, depois eu acho uma foto.)

Ok! La fui eu em desparada!!! Quando cheguei no ponto esbaforida eu vi um tram e entrei. O motorista falou um troço em finlandes e eu com preguiça de explicar que não falava finlandes e blablabla, só fiz: Iô... iô... (é o "tá, tá" deles). De repente o tal do tram entra numa garagem cheia de outros trams e o motorista vai embora.
Desacreditei! Lá estava eu no ponto final dos trams, que eu não fazia a mínima idéia de onde era, pensando em como voltar pra casa. Pensei em pegar o celular e chamar um taxi, mas eu só tinha 5 euros em moedinhas na carteira. No mapinha que eu levo na bolsa, só tem a área central de Helsinki, não dava pra eu me achar nele... Sai andando, tentando usar o meu péssimo senso de direção.

Andei muito! Mas fui desfrutando... pensava no quanto era especial estar perdida, andando por ruas e lugares que eu nunca tinha passado antes, sem saber ao certo se estava no rumo, mas com a certeza de que nada de muito ruim poderia me acontecer. Andando e dobrando esquinas quase que aleatoriamente... por instinto, vontade ou curiosidade... não importava.
Num dado momento eu achei um ponto do tram 3B, ele só ia passar às 6:00hs da manhã, mas como eu sei que ele passa pelo centro, resolvi ir seguindo os trilhos. Passo acelerado prá me manter aquecida, entre o gorro e gola do casaco eu espiava os meus tênis pisando nos trilhos... andei mais um bom tempo assim... nem vi o que tinha ao meu redor, fiquei só seguindo os tais trilhos perdida num monte de pensamentos. Quando eu levantei o rosto, avistei um locker de bicicletas públicas! Ainda não tinha me dado conta de que elas poderiam me ajudar numa situação como essa! Catei uma moeda enfiei no locker e catei a bicicleta: UUUUHHHUUUU!!!
Foi muuito divertido! Eu tava meio altinha do vinho, e as vezes dava aquelas desequilibradas com a bicicleta que a gente faz um zig-zag, sabe? Maior aventura! A brincadeira de estar perdida ganhou outra velocidade! Agora o meu cabelo voava, num céu muito estranho que já queria clarear. As ruas vazias e eu querendo aproveitar prá tentar dar aqueles saltinhos na guia da calçada. Foi mesmo engraçado...
Logo eu me encontrei, larguei a bicicleta no locker mais perto aqui de casa e fiz o restinho a pé. Pronto. Cheguei.

Minhas bochechas estão congeladas e eu estou louca para esquentá-las no meu edredom fofinho!
Boa noite a todos.

Blog: devaneios no circulo polar
Voces sabiam que tem brasileiro até na Ucrania? Pois é, o Txai foi.


Qual a cor da sua alma?

Não sei a que raça pertenço (e por acaso algum brasileiro sabe?), nem nunca me importei com isso. Sei apenas que sou uma mistura de índio, branco e negro. Tenho olhos ligeiramente puxados, pele morena e cabelos lisos. Na minha última ida ao Brasil, fui a um almoço em família. Um de meus sobrinhos, que raramente me vê (sim, sou um tio relapso), apontou para mim e perguntou ao meu irmão (que, mesmo sendo meu irmão, é completamente branquelo):

- Pai, quem é aquele japonês?

Isso tudo vem a propósito de ser hoje o Dia Nacional da Consciência Negra. Sei que existe discriminação (mais social que racial) no Brasil, mas fico irritado quando leio declarações de pessoas que insistem em querer comparar a situação brasileira com a de outros países.

Alguns, até, afirmam que no Brasil o racismo é pior que o americano ou europeu, pois seria dissimulado.

Essas pessoas na verdade confundem discriminação racial com ódio racial. Ambas são manifestações vergonhosas da estupidez humana, mas a diferença entre elas é enorme.

Para quem quiser comparar, aí vão algumas experiências pelas quais já passei em minhas andanças por esse mundão de Deus. E que nunca me aconteceram, e creio que nunca me acontecerão, no Brasil.

Cena 1: Restaurante em Kiev. Estou tranquilamente sentado com um amigo e noto que um sujeito na mesa ao lado me olha de maneira agressiva. Não dou bola. Lá pelas tantas, o sujeito levanta, olha pra mim com a cara ainda mais feia, estica o braço e berra:

- Heil Hitler!!!

Se fosse um skinhead, provavelmente eu não me surpreenderia. Mas como se tratava de um sujeito de aparência comum e inofensiva, só consegui ficar boquiaberto. Até tentei dar um desconto, o cara devia estar bêbado e tal. Só que essa mesmíssima situação voltou a acontecer outras vezes, em outros lugares. Com o tempo, fui aprendendo a encarar esse tipo de coisa. Agora, quando isso acontece, reajo com sarcasmo: estico o braço e grito de volta:

- Khakhol Hitler!!!

Khakhol é a forma pejorativa que os russos usam para se referir aos ucranianos. Significa, numa tradução livre, "morto de fome").

Cena 2: Uma rua de Kiev. Minha amiga brasileira tem a pele bem clara, mas a irmã dela é mais moreninha. Um sujeito passa por elas, grunhe algo para a moreninha e dá-lhe uma certeira cusparada.

Cena 3: Supermercado. Enquanto faço compras, percebo que um sujeito uniformizado me segue onde quer que eu vá. No caixa, o tal sujeito posta-se à saída e me observa enquanto a caixa registra as minhas compras. Faço o pagamento e me preparo para sair, quando o tal sujeito me aborda e pede que eu mostre o ticket e o conteúdo da sacola e dos meus bolsos. Claro que mandei ele à merda, aos berros. Aí vem a gerente que, num inglês horroroso, me explica que aquele é um procedimento normal, já que na cidade há muitos ciganos e imigrantes asiáticos.

Ela me disse isso assim, com a maior naturalidade do mundo, como se me informasse as horas. O que eu respondi a ela acho melhor não reproduzir aqui. P. da vida, virei a sacola de compras de ponta cabeça e derramei tudo nos pés da loira, entreguei-lhe o ticket do caixa e exigi que ela checasse todos os itens. Diante de ovos quebrados e leite derramado por todo lado, ela ficou vermelhíssima, pediu desculpas, disse que não precisava checar nada, estava tudo certo, muito obrigada.

Eu insisti: só sairia dali depois que ela verificasse tudo, timtim por timtim. Ela então chamou um dos seguranças e os dois começaram o serviço. Quando terminaram, perguntei se estava tudo ok, disseram que sim, estava tudo certo. Aí eu pedi de volta o ticket e informei a ela que queria de volta a quantia que havia pago. E ela que enfiasse aqueles produtos onde bem lhe aprouvesse. Ela se recusou.

Para encerrar a conversa, disse a ela que ficasse com o dinheiro. Era minha contribuição ao processo ucraniano de saída das cavernas.

Essa cena repetiu-se mais algumas vezes em outros lugares (claro que no primeiro supermercado nunca mais pus os pés). Numa ocasião, quando vi que o segurança, como de hábito, estava me seguindo, fui até a seção de comida para cães, peguei um pacotinho de ração, fui até o caixa e paguei. Ao passar por ele, que já me esperava na saída, atirei-lhe a ração e gritei:

- Toma, totó. Padarok (um presentinho).

Sei que não foi uma atitude lá muito cristã, mas paciência tem limites.

Cena 4: Aeroporto de Roma. Na fila do serviço de imigração, umas duzentas pessoas. Europeus, japoneses, americanos. Só eu com a pele mais marronzinha. Adivinha quem foi o único abordado por um sujeito uniformizado, com pinta de guarda-costas de Mussolini? Eu, claro.

A simpática figura literalmente arrancou o passaporte de minhas mãos e começou a fazer perguntas, ali mesmo na fila. Terminado o interrogatório, me acompanhou a um guichê exclusivo, no qual não havia fila, como quem tenta me compensar pelo inconveniente. Aproveitei e perguntei por que apenas eu estava sendo objeto daquele procedimento, se na fila havia tantas outras pessoas. Ele respondeu que aquilo era apenas uma medida de segurança normal.

Respondi que, se aquilo era considerado normal na Itália, talvez fosse melhor eu voltar do aeroporto mesmo. Antes que me acontecessem coisas anormais.

Passei então ao setor da alfândega. Dezenas de pessoas passando com suas bagagens, numa boa. Adivinha, de novo, qual foi a única mala que eles pediram para revistar?

Então. Alguém aí acha mesmo que existe racismo no Brasil?

Viva Pindorama, meu povo!!!

Blog: Astaróóójna!!!

23 de abr de 2004

Mandado por e-mail pela Leila!


Nao me lembro nenhum mico meu, mas prometo que vou pensar. O que tenho para falar aconteceu com dois amigos.

Os dois sao paulistas e em sampa super baladeiros, foram estudar em Michigan para fazer a pos graduacao.

Um belo dia eles arrumam uma turma e foram viajar, estavam cansados de ver neve e foram para um resort com piscina aquecida.
Todo mundo alegre, muita bebedeira em volta da piscina quando eis que me aparece os dois com a boa e tradicional (tradicional no Brasil) SUNGA.
Sunguinha pequena, mostrando os dotes dos meninos, tudo de bom......tudo de bom no Guaruja ou Copacabana, mas aqui em USA, pelo menos onde eles foram e com um monte de americanos, quase morreram de vergonha.

Todos os garotos estavam com short comprido quase ateh o joelho e quando viram os dois entrarem foi uma risada soh.
Depois das risadas viemos saber que quem usava sunga eram "bichas", e os meninos que tinham a fama de "catadores" passaram a ser motivo de piada....
Tadinho dos meninos. Eu acho que eles nunca mais colocam uma sunga na vida...ahahahaha

21 de abr de 2004

Olha o ralo da Liza ai', gente!!!!



Junho 2000
Que delicia esse silêncio e verde!! Tudo é novidade e só de pensar que 24horas antes eu estava no meio do trânsito caótico de São Paulo e agora…posso fazer xixi vendo os bambis no campo que fica atras de casa! Como explicar essa sensação pros meus que ficaram lá? Só vivendo aqui! Coisas que antes eu só conhecia em livros ou cinema. Mas pelo jeito nós também temos coisas que eles nem imaginam! Ralos por exemplo!

Esse é um acessorio completamente desnecessário para os suecos, se bobear não tem nem chuveiro. Pelo em nosso apartamento tem chuveiro e ralo no box também, mas com uma parede de 25cm de altura em volta dele…o que transforma possibilidade de lavar o chão uma missão impossivel.

Nossa casa fica no campo rodeada por florestas, um lugar idílico não fosse pela sensação que tenho de estar vendo a bandeira verde-rosa da Mangueira cada vez que chego em casa. Por ser uma casa enorme o proprietario teve a ideia de dividi-la em 2. Na parte térrea mora ele e 3 gatos, no piso superior moramos nós. Até que funciona bem. E como a entrada é a mesma falta um pouco de privacidade já que do hall em comum se tem uma visão completa do nosso banheiro. Parece que todos os caminhos levam ao banheiro!

A casa foi construida em 1890 e claro sendo renovada e perdendo as caracteristicas originais a cada nova tentativa do proprietário que não faz mínima ideia que rosa nas paredes externas não combina com o vermelho nos batentes das portas, que o piso de plástico verde claro que ele colocou na cozinha, não faz o par ideal com as paredes cobertas de papel amarelo e bordô.

Tudo isso tem solução, mas o que fazer quanto à falta de ralo? Como é que eu vou conseguir tirar esse cheiro permanente de barriga de sapo que o banheiro fica depois de só passar um paninho safado pelo chão!

Como vou lavar esse banheiro? Agora tenho que encontrar um jeito de amansar a Benedita quando ela baixar em mim.



Julho
Chegou no limite! Tenho que lavar, sinto que estou sofrendo de sindrome de abstinência.

Deus! Encontrei um ralo fica ( estranho!) atrás do vaso sanitário. Bem, não é um ralo de verdade, é apenas um buraco no chão e como o local é escuro eu não consigo ver lá dentro. Mas certamente é um ralo! Senão pq haveria de ter um buraco logo ali!?

Estou em casa sozinha e então será perfeito. Posso jogar água de balde à vontade. Ninguém pra me olhar com cara de espanto. Rodo? nunca viram! Mas achei um que pode quebrar um galho. Um rodinho minúsculo que eles usam pra limpar os vidros das janelas.

Vai me dar uma baita dor no lombo de ficar abaixada nesse cabo curto, mas vai valer a pena!!

Armada de todos os apetrechos improvisados, lavei, esfreguei, aproveitei e lavei a janela que dá pro bosque, assim posso ver melhor os bambis enquanto estiver na santa paz do banheiro.


Pronto! feito, banheiro cheiroso e nem foi dificil pois a água descia que era uma beleza pelo ralinho! Por que é que eu não vi isso antes?

A noitinha batem à porta? Eu não entendo uma única palavra já que eles falam em sueco, mas pelo tom entendi que a coisa era meio brava!

Era o vizinho do andar térreo que ao chegar em casa encontrou tudo inundado! Pois era pra lá que o tal buraco-pseudoralo se dirigia!!!

Ora ora ora!? Pq alguem faria um buraco no chão do banheiro? qual a finalidade se não servir pra escoar água? Desconfio que em tempo passado esse buraco no chão servia pra espionar o quarto embaixo. Porque é exatamente ali debaixo do buraco que fica a cama do vizinho.

Bom, essa noite ele dormiu no sofa! e eu tapei o tal buraco pq não quero saber de ninguem escutando os barulhinhos da gente no banheiro!

Blog: Coisas escritas e nem sempre faladas...

20 de abr de 2004

Como o assunto de ralo começa a esgotar (ha ha ha) o 'sem ralo' inicia agora com alguns posts que falam da perplexidade tupiniquim diante da realidade diaria que enfrentamos no "primeiro mundo"... Nada melhor que começar com um post que a Julie achou da Denise Arcoverde, que mora na Suécia e nos faz recordar que nao sao so' ELES que sabem pouco de NOS... e, fazendo este blog, queremos somente nos divertir com as situaçoes que aparecem e mostrar a quem nunca saiu da terrinha (e talvez esteja pensando em se mandar...) aquilo que os livros nao dizem.



Estereótipos daqui e de lá!

Buenos Aires é a capital do Brasil? dá pra cruzar o país de trem? o Brasil fica na Asia? a gente vive na floresta amazônica? e por ai vai... Eu acho muito engraçado perceber como o resto do mundo é desinformado sobre nosso Brasil, tão grande.

Mas, pensa bem... o que é que você sabe, realmente, sobre a Rússia ou a China. Quantos brasileiros sabem qual a capital do Canadá? ou onde fica a Albânia? ou se tem praia na Alemanha?

Tem discriminação contra o Brasil? tem. Mas também tem, simplesmente, desinformação. Pura e simples. E ai não somos as únicas vítimas. Assim como não somos as únicas vítimas dos estereótipos criados, mundo afora.

Todo mundo que vive fora no Brasil já se irritou com a nossa imagem: samba, carnaval, futebol, pelé, miséria, criminalidade...

A gente fica com raiva mesmo, mas olha... "os espanhóis são barulhentos", "os italianos são conquistadores", "os franceses não gostam de banho", "os ingleses são pervertidos" e agora, "os árabes são terroristas"!... cada um com seu estereótipo... e os suecos?

Esses também não escapam. Li um texto super interessante, em um site sueco, que vou traduzir ai abaixo:

"Quando nós, suecos, viajamos pelo mundo, frequentemente encontramos pessoas que, à primeira vista, parecem não ter nenhuma idéia sobre o que é o nosso pais. Após algum tempo, percebemos, na verdade, que eles têm algumas firmes convicções sobre o que nós somos.
De uma forma geral, são as mesmas velhas e míticas imagens da Suécia: um país comunista habitado por ursos polares, louras (burras, mas gostosas), pessoas melancólicas, suicidas e bêbados. Parece até que esses clichês têm vida própria.

Então, é importante derrubá-los, um a um:

Suecos(as) são super abertos(as) sexualmente: Esse mito se originou principalmente em filmes suecos dos anos 50, 60 e 70 com cenas de nudez. Tem pouco a ver com a realidade. É verdade que os suecos têm uma postura mais relaxada em relação à nudez e ao sexo que a maioria dos povos. Contudo, isso não significa promiscuidade e, analisando as estatísticas sobre gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis, a Suécia está sempre como um dos países lá embaixo, na comparação internacional.

Socialismo: A Suécia é um país com economia de mercado democratizada, ainda que com redistribuição de renda bem maior que a maioria dos países.

Suicídio: Um mito fortíssimo e que não tem nenhuma relação com a realidade. Tudo começou como uma estratégia dos conservadores americanos, lançada nos anos 50, nos EUA como uma arma contra os liberais de esquerda que viam a Suécia como um modelo de política de "terceira via". A verdade é que, simplesmente, a Suécia foi o primeiro país a manter registros honestos sobre suicídios (ainda tabu no mundo católico, e em outros lugares). De fato, mais uma vez, nossos dados são baixos em comparação internacional

Ursos polares nas cidades: Não.

Belas louras: Sim. Burras? näo!

Clima frio Sim e não. O inverno sueco pode ser severo, mas considerando a nossa localização geográfica, tão ao norte, a Suécia pode ter até um bom clima, com um verão muito agradável.

Alto índice de alcoolismo: França e Portugal, por exemplo, consomem muito mais alcool per capita que a Suécia."

Portanto, não somos os únicos a reclamar. As pessoas têm uma tendência a "classificar" tudo, a arte, o trabalho, os países e até as pessoas. É uma forma de tentar comprender o desconhecido.
Se os suecos têm uma visão equivocada do Brasil, eu também já ouvi todos esses estereótipos sobre os suecos, antes de vir pra cá. E mais, que são frios, depressivos, que não sabem se divertir, que a vida aqui é monótona... e não é bem assim... Enfim, acho que a gente deve tentar esquecer os rótulos e entender as pessoas e os países, da forma complexa como eles são.

Blog: Sindrome de Estocolmo

19 de abr de 2004

Nada a ver com ralos, somente choque de culturas!




Surreal...

- "Trouxe um presente pra voce, é uma surpresa, uma coisa que voce nunca viu."
Abro o pacote, e fico esperando a surpresa.
- "Se chama "morango", e é uma fruta que tem aqui muito gostosa."
- "Ahnnnn....."
(minha sogra, logo depois que eu cheguei)

- "Voce vai pro Consulado em Milao de trem?"
- "Sim, depois pego o metro"
- "Toma cuidado e se segure bem quando comecar a andar, sabe, voce NUNCA VIU o metro e pode se machucar com o arranco."
(sempre minha sogra, cheia de cuidados)

- "Voce esta' gostando daqui?"
- "Sim, é um lugar tranquilo e cheio de verde, bla bla bla..."
- "Pois é, voce fez bem em vir pra ca' com a sua menina. Fico so' imaginando sua filha no Brasil no meio da rua, toda sujinha como aqueles meninos que vemos na televisao. Aqui pelo menos ela vai ser educada."
(velhinha na saida da missa)

- "Que linda caligrafia! Se ve logo que a senhora aprendeu a escrever aqui!"
(cliente quando entreguei o bilhete da roupa)

- "Ah, a senhora é brasileira?"
- "Sim."
- "Mas sua filha nao, né? "
- "Minha filha também."
- "Impossivel! Ela é tao branquinha..."
(cliente)

- "No Brasil, as mulheres transam no meio da rua."
(idiota, numa festa brasileira no meu bairro)

- "Eu ja' fui em Copacabana, mas no Rio nunca fui."
(cliente mentiroso ou ruim de geografia)

- "Que idéia eh essa que te veio, de casar com uma negra?"
- "Minha mulher nao é negra, é bege"
(dialogo entre o meu marido e um colega de infancia)

- "A senhora jah tomou ane%^$#_)(?"
- "Hein?" (eu nao tinha escutado mesmo)
- " A N E S T E S I A A A A !!!! (quase urlando). Voces, quando vem pra ca' deviam pelos menos aprender o italiano"
(médico, depois que eu ja' estava aqui ha um tempao e falava italiano melhor do que ele - a palavra 'anestesia' é igual nas duas linguas!)

- "Quantos quilometros sao daqui até o Brasil?"
- " Nao sei, sei que de Milao ao Rio sao 12 horas de viagem."
- " De carro?"
(cliente, que nao entendia porque eu nao ia pro Brasil num fim-de-semana)

- "Ah, agora eu sei porque voces sao assim! No Rio eu vi uma loja de bunda inflavel!"
(cliente, chegando de uma viagem ao Brasil. Essa eu so' entendi depois que eu fui no Brasil e vi os manequins de plastico inflavel nas lojas, ele deve ter visto um sem roupa e pensado que nos compramos nosso famoso bundao na loja).

- "Nao sabia que as casas no Brasil eram iguais as daqui, essa aqui tem até jardim!"
(meu cunhado, admirado com as fotos que eu fiz no Brasil)

Mico I
Quando cheguei aqui, nao pude ter logo o "permesso di soggiorno", que é o documento que praticamente te legaliza na Italia. Durante quase 3 anos vivemos como clandestinas e assim tivemos que fazer um seguro pra qualquer emergencia. Logo, no medico, so' pude ir quando ja estava regularizada. Aqui eu uso o INPS e, medico particular, so' mesmo em casos extremos ($$$$$$) e la' fui eu toda serelepe pro ginecologista, ja' que era hora de fazer o preventivo. Toda mulher sabe o saco que é um ginecologista novo e eu ja' tava tao acostumada com o meu no Brasil, que era o mesmo desde que eu era novinha (ihhhhh, quanto tempo). Nao conhecendo ninguém, fui no primeiro que tinha vaga e chegando la', depois das primeiras perguntas, ele pediu pra ir tirar a roupa pra fazer o exame. Pra ir no banheiro tinha que passar num corredor longo uns 6 metros com duas portas laterais que eu acho eram outros consultorios. Entrei e depois que tirei a roupa, nao achei nada pra me cobrir a nao ser um avental azul, daqueles de hospital, pendurado na parede. Cade os aventais descartaveis que eu tava acostumada? Sera que eu tinha que trazer de casa? Como fazia a atravessar aquele corredorzao pelada? Nao é possivel, mas so' podia ser aquele avental ali pendurado, ja' usado por nao sei quantas pessoas, enfim, um avental comunitario. Pegando pelas pontinhas vesti o treco pensando no meu Cabochard desperdiçado e fui enfrentar o exame. Quando cheguei na sala do médico, vi a enfermeira que deu uma risadinha que eu tolamente pensei que fosse pra mim. Percebi que o médico se comportava um pouco diferente de antes, como se estivesse sem-graca. No fim da consulta, eu ja tinha decidido de nao voltar mais com ele, pois percebi uma ma-vontade quando eu pedi pra examinar os seios, ate' perguntou se eu nao sabia fazer o auto-exame (com a cara de que o meu peito podia dar choque) e eu ja' meio chateada respondi que fazia sempre mas ja' que eu tava no medico, me sentiria mais tranquila com um exame profissional. Quando estava pra me vestir de novo, falei pra enfermeira: ta' um pouquinho sujo esse avental acho que é hora de trocar. Vi uma cara de surpresa.
Volto depois de 2 anos, dessa vez com uma doutora, que por sinal é minha cliente e vizinha e, antes de ir tirar a roupa, a enfermeira (outra) me diz:
- Olha, tira so a parte de baixo e vem assim mesmo, nao vai fazer como uma que veio aqui, vestiu o avental do médico e ainda teve coragem de dizer que tava sujo!
Abriu-se um buraco.

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